Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 07 de janeiro de 2026

A ideia de data centers de inteligência artificial operando no espaço, antes restrita à ficção científica, passou a ser tratada como um plano real por líderes das indústrias de tecnologia e aeroespacial. A preocupação central é que as instalações atuais de computação, fundamentais para o avanço da IA, passem a exigir mais energia e áreas livres do que a Terra pode oferecer.
Segundo executivos e especialistas do setor, se as projeções do crescimento da inteligência artificial se confirmarem, seria apenas uma questão de tempo até que grandes estruturas de processamento de dados passem a operar em órbita, visíveis no céu noturno como planetas. O argumento é que, diante das limitações físicas e energéticas no planeta, o espaço poderia se tornar a alternativa viável — e talvez inevitável — para sustentar a expansão da IA.
Em novembro, o Google anunciou que trabalha no Project Suncatcher, um projeto de data center espacial com lançamentos de teste previstos para 2027. Recentemente, Elon Musk afirmou, durante uma conferência, que data centers no espaço poderiam se tornar a forma mais barata de treinar modelos de IA em até cinco anos.
Outros nomes de peso também demonstraram apoio à ideia, como Jeff Bezos, fundador da Amazon e da Blue Origin; Sam Altman, diretor-presidente da OpenAI; e Jensen Huang, CEO da Nvidia.
Para Philip Johnston, CEO da startup Starcloud, que atua no desenvolvimento de data centers espaciais, a discussão já não é se isso acontecerá, mas quando. Segundo ele, a corrida da IA atingiu um nível tão intenso que pressiona os limites de infraestrutura existentes na Terra.
A expansão acelerada do setor reforça essa percepção. Empresas como Meta, OpenAI, Microsoft e Amazon vêm investindo centenas de bilhões de dólares em data centers ao redor do mundo. Somente a OpenAI já comprometeu cerca de US$ 1,4 trilhão nesses projetos. Países como a Arábia Saudita também passaram a direcionar grandes volumes de recursos para iniciativas semelhantes, enquanto companhias menores recorrem a endividamento elevado para competir nesse mercado.
Mesmo assim, data centers terrestres enfrentam restrições crescentes. Em diversas regiões, não há oferta suficiente de energia para atender à demanda computacional. Além disso, surgem resistências locais relacionadas ao aumento no consumo de eletricidade, à pressão sobre recursos hídricos e à ocupação de grandes áreas.
Esse contexto impulsionou propostas mais ambiciosas, como a construção de data centers no espaço. Pesquisas técnicas indicam que alguma versão desses projetos pode se tornar viável nas próximas décadas. No entanto, críticos argumentam que muitas dessas propostas enfrentam obstáculos físicos e financeiros significativos.
Pierre Lionnet, economista espacial e diretor da associação setorial Eurospace, afirma que declarações recentes de líderes da tecnologia sobre data centers espaciais em larga escala estão muito além do que as pesquisas atuais indicam ser possível. Para ele, as ideias apresentadas desconsideram limitações técnicas e custos elevados.
A noção de estruturas de dados no espaço não é totalmente nova. A NASA discutiu conceitos semelhantes ainda na década de 1960. Nos anos 1980, “repositórios de dados” orbitais apareceram em obras de ficção científica, e, na última década, o tema voltou a ganhar atenção com o avanço da IA.
O principal atrativo do espaço é a oferta abundante de energia solar, praticamente contínua, sem interferência de nuvens, segundo Johnston. Além disso, há menos restrições ambientais e inexistem comunidades locais que possam se opor aos projetos. Por outro lado, a viabilidade econômica depende da redução expressiva dos custos de lançamento e da solução de desafios técnicos como radiação e refrigeração.
“Como tese de negócio, é plausível”, afirma Phil Metzger, professor de física da Universidade da Flórida Central e ex-físico da NASA. Ele ressalta, porém, que o debate ainda está em evolução.
Os conceitos propostos diferem bastante dos data centers terrestres, que ocupam áreas equivalentes a estádios de futebol. Os modelos imaginados para o espaço se assemelham a grandes satélites, com servidores de chips de IA no centro, cercados por quilômetros de painéis solares. Essas estruturas precisariam ser reconstruídas a cada cinco anos, período médio de substituição dos chips.
O custo atual, no entanto, é um entrave relevante. Lançar um quilo de material ao espaço custa cerca de US$ 8.000, segundo Lionnet. A SpaceX oferece a tarifa mais baixa do mercado, em torno de US$ 2.000 por quilo, mas racks individuais de servidores podem pesar mais de uma tonelada. Para Metzger, o modelo só se tornaria economicamente viável se os custos caíssem para cerca de US$ 200 por quilo, o que ele estima levar aproximadamente uma década.
Há ainda desafios técnicos importantes. Chips modernos não são projetados para resistir à radiação espacial, o que comprometeria sua confiabilidade, segundo Benjamin Lee, professor da Universidade da Pensilvânia. Além disso, embora o espaço seja extremamente frio, ele é um vácuo, sem ar para dissipar calor, exigindo grandes radiadores para resfriamento.
Apesar das barreiras, Musk segue defendendo a ideia. Em novembro, ele afirmou em publicações na plataforma X que a “escalada séria da IA” teria de ocorrer no espaço. Em outra postagem, sugeriu a construção de 300 gigawatts em data centers orbitais, volume superior à metade do consumo anual de energia dos Estados Unidos.
O diretor financeiro da SpaceX, Bret Johnsen, informou em carta recente a acionistas que a empresa avalia uma oferta pública inicial para levantar recursos destinados, entre outros projetos, a data centers de IA no espaço.
Para Tom Mueller, ex-executivo da SpaceX, parte do interesse crescente decorre da convergência entre dois dos temas mais atrativos para investidores atualmente: inteligência artificial e espaço. Segundo ele, a combinação dessas frentes cria uma narrativa poderosa de oportunidade financeira.
Visão Bolso do Investidor
A discussão sobre data centers de IA no espaço revela até que ponto a expansão tecnológica pressiona os limites físicos e energéticos da economia global. Ainda que a viabilidade técnica e financeira esteja distante, o debate indica tendências relevantes para investidores: crescimento exponencial da demanda por infraestrutura de IA, aumento do capital direcionado a soluções energéticas e espaciais e maior integração entre tecnologia, energia e defesa. Mesmo que os projetos orbitais demorem a se concretizar, o movimento já influencia decisões estratégicas, investimentos bilionários e a forma como grandes empresas planejam sustentar a próxima fase da transformação digital.
Fontes:
- InfoMoney
- The New York Times
