Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 4 de novembro de 2025

Mesmo com leis que garantem remuneração igual para funções equivalentes, a desigualdade estrutural entre homens e mulheres continua marcando o mercado de trabalho brasileiro. O mais recente Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e pelo Ministério das Mulheres, revelou que as brasileiras ainda ganham, em média, 21,2% menos do que os homens — uma diferença que pode chegar a R$ 1.049,67 em empresas com mais de 100 funcionários.
O levantamento, baseado em 19,4 milhões de vínculos trabalhistas, mostra que as mulheres recebem em média R$ 3.908,76, enquanto os homens têm remuneração média de R$ 4.958,43. Embora a participação feminina na força de trabalho tenha subido ligeiramente — de 40% em 2023 para 41,1% em 2025 —, o avanço ainda é tímido diante das barreiras culturais e estruturais.
Raízes culturais e impacto econômico
Para especialistas, o problema vai muito além da planilha salarial. “A desigualdade salarial não é só uma questão de números, mas de um modelo social que ainda associa liderança e mérito à figura masculina”, explica Vanessa Maria Sapiencia, advogada trabalhista e diretora de compliance no Pellegrina e Monteiro Advogados.
Ela reforça que, embora o Brasil possua uma legislação sólida, o cumprimento efetivo das normas depende de uma transformação cultural nas empresas. “A lei existe, mas só vira cultura quando jurídico, compliance e RH trabalham juntos para fazer da equidade um valor, e não apenas uma obrigação”, destaca.
De acordo com o relatório, se a massa salarial feminina fosse equivalente à sua participação no mercado, R$ 92,7 bilhões adicionais poderiam circular na economia, impulsionando consumo e arrecadação.
O papel das empresas e as justificativas
As companhias costumam justificar as diferenças com base no tempo de experiência (78,7%), metas de produtividade (64,9%) e planos de cargos e salários (56,4%). Contudo, quando se observa o recorte de gênero e raça, o cenário é ainda mais desigual: mulheres negras ganham 53,3% menos do que homens não negros.
As disparidades regionais também são marcantes. Paraná e Rio de Janeiro apresentam as maiores diferenças salariais (28,5%), enquanto Piauí (7,2%) e Amapá (8,9%) registram os menores índices.
Segundo o MTE, a Lei 14.611/2023, que estabelece igualdade salarial, enfrenta resistência cultural e desafios de fiscalização. “É um problema histórico, cultural e econômico. A lei é importante, mas o avanço depende de práticas como processos seletivos cegos, programas de mentoria e metas de equidade”, afirma Fernando Zarif, advogado trabalhista.
Consequências econômicas da desigualdade
A disparidade salarial tem efeitos diretos sobre o crescimento do país. Economistas apontam que a desigualdade de gênero limita a renda nacional, reduz a arrecadação tributária e amplia a exclusão social. Segundo o Fórum Econômico Mundial, o Brasil levará 132 anos para alcançar igualdade plena se o ritmo atual for mantido.
“A igualdade salarial é uma política econômica, não apenas uma questão de direitos”, analisa Rafaela Sionek, sócia do BBL Advogados. “Empresas com maior equidade de gênero registram ganhos de produtividade, inovação e reputação. É um ativo estratégico, e não um custo.”
Avanços graduais e novos desafios
Apesar das dificuldades, há sinais de progresso. O número de empresas com diferença salarial de até 5% entre homens e mulheres cresceu 6,4%, e aquelas com pelo menos 10% de mulheres negras aumentaram 21%. Em paralelo, grandes companhias já demonstram avanços na paridade de liderança.
O governo intensificou a fiscalização, com 787 inspeções e 154 autos de infração até outubro. Para o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, o foco agora é enfrentar a “pejotização”, que distorce comparações salariais ao mascarar vínculos formais. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, reforçou: “Não é falta de lei, é falta de prática. A equidade precisa deixar de ser meta e virar regra.”
Equidade como valor estratégico
Na avaliação da advogada Roberta Dantas Ribeiro, do Chalfin Goldberg Vainboim Advogados, a equidade deve ser tratada como parte da governança corporativa. “Ignorar desigualdades é um risco reputacional e jurídico. Às empresas que se antecipam a essa agenda se tornam mais competitivas e sustentáveis”, afirma. Para os especialistas, transformar a igualdade de gênero em prática cotidiana é o desafio central — e uma oportunidade econômica. Afinal, justiça social e prosperidade andam lado a lado.
Fontes: Infomoney; Ministério do trabalho
