Domínio da China sobre terras raras ameaça rearmamento da Europa

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 7 de novembro de 2025

Dependência estratégica em meio ao rearmamento europeu
Com uma Rússia cada vez mais agressiva e os Estados Unidos assumindo uma postura mais isolacionista, os países da União Europeia intensificaram seus planos de rearmamento e fortalecimento militar. No entanto, esse esforço enfrenta um obstáculo crítico: a dependência da China no fornecimento de metais de terras raras, insumos essenciais para a fabricação de mísseis, caças, drones e outros equipamentos de defesa.

A China domina o mercado global desses minerais e vem utilizando essa vantagem como ferramenta de pressão diplomática em suas disputas comerciais com Washington e Bruxelas. Nos últimos meses, Pequim restringiu as exportações de sete elementos de terras raras e ímãs permanentes, afetando diretamente a indústria de defesa europeia.

Negociações e tentativas de contenção
Autoridades da Comissão Europeia, lideradas por Ursula von der Leyen, têm buscado reduzir a dependência do bloco em relação à China. Na última quarta-feira (5), embaixadores dos 27 países da UE foram informados de que Pequim estaria disposta a negociar licenças gerais de exportação, que poderiam agilizar o envio dos minerais críticos.

Apesar disso, diplomatas alertam que não há garantias de uma solução rápida ou estável. O porta-voz da Comissão, Olof Gill, afirmou que o diálogo com os chineses “continua”, mas reconheceu que o cenário atual expõe a vulnerabilidade do bloco: “Os altos e baixos deixaram claro o quanto nosso rearmamento depende de uma relação cada vez menos confiável com a China.”

Europa em posição delicada
Cerca de 98% das importações de terras raras da União Europeia vêm da China — uma dependência ainda maior que a dos Estados Unidos, que importam 80% desses materiais do país asiático. Embora as reservas desses minerais existam em várias partes do mundo, a extração e o refino são processos altamente complexos e caros, dominados por empresas chinesas.

Para tentar reduzir essa dependência, a UE aprovou, em 2024, uma lei que cria incentivos à formação de uma indústria doméstica de minerais críticos. Mesmo assim, analistas da consultoria SFA Oxford estimam que uma diversificação completa levaria entre 8 e 12 anos, considerando o tempo necessário para desenvolver minas, refinarias e integrar a cadeia produtiva ao sistema de defesa da OTAN.

Impactos na segurança europeia e global
Os minerais de terras raras são fundamentais em tecnologias militares de ponta, como caças F-35, mísseis Tomahawk, submarinos e sistemas de radar. Segundo o pesquisador Joris Teer, do Instituto da União Europeia para Estudos de Segurança, “sem o fluxo de minerais críticos, não há rearmamento”.

Pequim, ao exigir que seus exportadores detalhem o uso final das remessas, passou a ter acesso privilegiado às cadeias de suprimentos ocidentais, o que aumenta sua influência geopolítica. A decisão de restringir exportações já provocou escassez e alta nos preços de metais como o disprósio e o samário, usados em ímãs de alta resistência térmica.

Respostas desiguais entre EUA e Europa
Os Estados Unidos têm avançado mais rapidamente na busca por autonomia. O Departamento de Defesa americano adquiriu uma participação de US$ 400 milhões na MP Materials e anunciou novos financiamentos a empresas como Vulcan Elements e ReElement Technologies, especializadas em produção de ímãs a partir de reciclagem de terras raras.

Já a Europa enfrenta resistência de suas próprias indústrias, que questionam se os incentivos do bloco — como compras conjuntas, financiamentos e licenciamento acelerado — serão suficientes para garantir suprimento a tempo.

Diplomacia como última alternativa
Diante desse impasse, a diplomacia europeia tenta reabrir canais de cooperação com Pequim, na esperança de evitar um bloqueio completo. Para analistas como Benedetta Girardi, do Centro de Estudos Estratégicos de Haia, o objetivo da China é “desacelerar o avanço militar simultâneo dos Estados Unidos e da Europa”, enfraquecendo seus adversários de forma interligada.

Apesar das tentativas de aproximação, especialistas alertam que a Europa ainda está longe de alcançar a autonomia na cadeia de suprimentos de minerais estratégicos. “Os chineses estão tentando puxar o tapete debaixo de toda a iniciativa de rearmamento da Europa”, resumiu Joris Teer.

Visão Bolso do Investidor
A disputa pelas terras raras vai muito além da geopolítica — trata-se de uma batalha econômica e tecnológica que define quem controlará o futuro da indústria global. A dependência europeia da China expõe a fragilidade do bloco diante de um cenário de tensões militares e pode afetar desde o custo de equipamentos de defesa até o equilíbrio energético e industrial.

Para o investidor, o tema sinaliza oportunidades no setor de mineração e reciclagem de metais estratégicos, além de reforçar a importância de acompanhar os movimentos de política industrial e tecnológica da União Europeia, que tendem a ganhar força nos próximos anos.

Fontes: InfoMoney; Bloomberg; Estadão; Reuters; O Globo.