Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 25 de fevereiro de 2026

O mercado brasileiro de ETFs (fundos de índice negociados em bolsa) vive uma fase de forte expansão — e, desta vez, o crescimento está sendo puxado principalmente pela renda fixa. Dados da Anbima mostram que o patrimônio líquido da indústria praticamente dobrou em pouco mais de um ano, passando de R$ 46,4 bilhões no fim de 2024 para R$ 90,2 bilhões em janeiro de 2026.
Apesar do avanço acelerado, esses produtos ainda representam uma parcela muito pequena do sistema financeiro nacional. No Brasil, os ETFs correspondem a menos de 1% da indústria de fundos, enquanto nos Estados Unidos chegam a aproximadamente 35%. Essa diferença reforça a percepção de que o mercado ainda está em estágio inicial de desenvolvimento.
Atualmente existem 177 ETFs listados na bolsa brasileira. Metade deles replica índices de renda variável, enquanto cerca de 24% acompanham ativos de renda fixa — número ainda reduzido, mas que vem crescendo rapidamente.
Por que a renda fixa passou a liderar
Historicamente, os ETFs brasileiros foram dominados por produtos ligados a ações. A mudança recente ocorreu por uma combinação de fatores macroeconômicos e tributários.
Durante anos, muitos investidores preferiram fundos exclusivos, que possuíam vantagens fiscais relevantes. A alteração na tributação desses veículos, com a incidência do chamado “come-cotas” (antecipação semestral do imposto), fez com que parte relevante do patrimônio migrasse para alternativas mais eficientes.
Nesse contexto, os ETFs de renda fixa surgiram como solução: permitem exposição a títulos públicos ou inflação sem cobrança antecipada de imposto. Para investidores que buscavam manter baixo risco e eficiência tributária, o produto tornou-se especialmente atrativo.
Outro fator importante foi a evolução do modelo de distribuição financeira. Consultores e assessores passaram a trabalhar com remuneração mais alinhada ao cliente — via taxa fixa — o que reduz incentivos para indicar produtos mais caros e aumenta o uso de instrumentos simples e transparentes como os ETFs.
Estratégia das gestoras
A XP Asset, por exemplo, lançou recentemente novos fundos, incluindo produtos atrelados ao Tesouro IPCA+ e até criptoativos. A ideia é permitir que investidores consigam montar carteiras completas usando apenas ETFs, replicando o modelo consolidado no mercado americano.
O objetivo das gestoras não é apenas aumentar a quantidade de produtos, mas ampliar a diversificação por classes de ativos. O movimento marca uma mudança estrutural: o ETF deixa de ser visto apenas como instrumento para ações e passa a ocupar espaço também em renda fixa e alocação estratégica de portfólio.
O que ainda impede uma expansão maior
Apesar do crescimento, ainda existem obstáculos importantes.
O principal é o nível elevado dos juros reais no Brasil. Títulos públicos indexados à inflação pagando taxas próximas de 7% ao ano continuam sendo concorrentes diretos e muito fortes. Para muitos investidores, comprar diretamente o Tesouro ainda parece mais simples.
Além disso, há barreiras de entendimento e experiência do usuário. Muitos investidores ainda não compreendem claramente o funcionamento dos ETFs — inclusive o fato de ETFs de renda fixa aparecerem na corretora como se fossem ações, por serem negociados no home broker.
Outro desafio é educacional: o produto exige alguma familiaridade com índices, duration e marcação a mercado, conceitos que ainda não são intuitivos para parte do público.
Perspectivas
Mesmo com essas limitações, a expectativa de gestores é que os ETFs ganhem protagonismo no próximo ciclo de alta do mercado. Em um ambiente de maior otimismo e aumento do número de investidores, produtos simples, diversificados e de baixo custo tendem a atrair grandes volumes de capital.
Visão Bolso do Investidor
O crescimento dos ETFs de renda fixa mostra uma mudança silenciosa no comportamento do investidor brasileiro.
Por décadas, o investidor local se acostumou a escolher produtos prontos: CDBs do banco, fundos caros ou recomendações pontuais. O ETF introduz outra lógica — a de construção de carteira. Em vez de escolher um produto específico, o investidor passa a escolher uma estratégia.
Isso é importante porque aproxima o Brasil do padrão internacional de investimentos, onde a alocação (asset allocation) pesa mais que a seleção de ativos individuais.
Se a educação financeira avançar e os juros reais começarem a cair nos próximos anos, o ETF pode se tornar uma das principais portas de entrada para novos investidores. Em outras palavras: não é apenas um produto crescendo — é um novo jeito de investir começando a se consolidar no país.
Fontes:
- InfoMoney
