Furacão Melissa aciona título de catástrofe de US$ 150 milhões para a Jamaica e reacende debate sobre eficácia dos “cat bonds”

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 11 de novembro de 2025

O mercado global de títulos de catástrofe (cat bonds), avaliado em mais de US$ 55 bilhões, vive um momento raro: o furacão Melissa, de categoria 5, acionou integralmente um título de US$ 150 milhões emitido pela Jamaica, resultando na perda total do principal pelos investidores. O evento reacende discussões sobre as limitações e desafios do financiamento climático para países vulneráveis.

O título jamaicano vinha sendo alvo de controvérsias desde 2024, quando o furacão Beryl devastou a ilha sem acionar os gatilhos previstos. Críticos afirmavam que as regras de ativação dos cat bonds eram excessivamente rígidas, protegendo investidores enquanto deixavam países em crise sem acesso aos recursos.

Desta vez, o desastre causado por Melissa — com ventos acima de 250 km/h — satisfez todos os critérios contratuais. “Na verdade, é algo positivo que este título pague”, afirmou Dirk Schmelzer, gestor da Plenum Investments AG, que detinha parte da emissão. “Mostra como essas estruturas podem apoiar os países na recuperação pós-catástrofe.”

O que são os “cat bonds”

Os títulos de catástrofe são instrumentos financeiros emitidos por seguradoras ou governos para transferir riscos de desastres naturais aos mercados de capitais. Os investidores recebem retornos elevados — no caso da Jamaica, 7% acima das taxas do mercado monetário dos EUA —, mas perdem o valor aplicado se um desastre predefinido ocorrer.

O último título climático a ser integralmente pago havia sido o relacionado ao furacão Ian, em 2022. Desde então, o índice Swiss Re Global Cat Bond registrou uma valorização acumulada de 60%.

Impacto e desafios

A Jamaica, hoje com o programa de financiamento para desastres mais robusto do Caribe, deve receber os US$ 150 milhões do título, além de US$ 300 milhões em crédito contingente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e US$ 92 milhões de um seguro paramétrico.

Mesmo assim, o valor cobre apenas uma fração das perdas. Segundo a Verisk Analytics, os danos segurados variam entre US$ 2,2 bilhões e US$ 4,2 bilhões, com menos de 20% das residências seguradas.

Os recursos disponíveis jamais serão suficientes nem para o socorro imediato, quanto mais para reconstrução,” afirmou Dana Morris Dixon, ministra da Educação e Informação da Jamaica.

O Banco Mundial, responsável pela emissão do título, afirmou que o caso demonstra “a eficiência dos títulos de catástrofe na transferência de risco para o mercado de capitais”. O vice-presidente da instituição, Jorge Familiar, elogiou a estratégia jamaicana como “modelo de resiliência financeira”.

Por outro lado, Jwala Rambarran, ex-presidente do Banco Central de Trinidad e Tobago, alerta para a rigidez dos parâmetros desses títulos:

Os gatilhos ainda são muito estreitos. Precisamos repensar o design dos cat bonds para equilibrar retorno financeiro e impacto social.

Repercussões globais

Os principais investidores do título da Jamaica incluem Stone Ridge Asset Management (EUA), Baillie Gifford (Reino Unido) e Schroders. Analistas afirmam que as perdas não afetarão significativamente os fundos, já que a exposição é pequena.

Para Schmelzer, da Plenum, “esta é uma perda melhor do que outras”, destacando que os investidores de perfil ESG valorizam esse tipo de aplicação com impacto social.

A discussão sobre o papel dos cat bonds deve ganhar força na COP-30, no Brasil, especialmente dentro do chamado Roteiro Baku-to-Belém, que busca mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano para países em desenvolvimento.

Estudos mostram que, três anos após furacões na região do Caribe, os níveis médios de dívida pública sobem 18%. O Programa Mundial de Alimentos destacou o “nível de devastação sem precedentes” em declaração recente.

O caso da Jamaica escancara uma realidade: mesmo com instrumentos financeiros sofisticados, o financiamento climático ainda é insuficiente diante da escala das catástrofes”, concluiu Rambarran.


Visão Bolso do Investidor

Os títulos de catástrofe se consolidam como ferramentas importantes para mitigação de riscos climáticos, mas o episódio da Jamaica mostra seus limites práticos. Em países vulneráveis, a estrutura atual ainda favorece o investidor em detrimento do impacto social.

Para o investidor brasileiro, o caso reforça uma tendência: a expansão do mercado de finanças climáticas e ESG, que vem ganhando relevância em portfólios institucionais e pode, no futuro, incluir emissões domésticas voltadas à adaptação climática e infraestrutura resiliente.

Fontes:

  • InfoMoney