Gestor de fundo de tecnologia reduz exposição a software e aposta em semicondutores diante do avanço da IA

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 17 de fevereiro de 2026

O avanço acelerado da inteligência artificial tem levado investidores a rever posições no setor de tecnologia. Nick Evans, gestor do fundo global de tecnologia da Polar Capital, afirma que muitas empresas de software podem não sobreviver ao novo cenário e decidiu reduzir praticamente toda a exposição ao segmento.

O fundo administrado por Evans possui cerca de US$ 12 bilhões e superou 99% dos concorrentes no último ano e 97% em cinco anos.

Segundo o gestor, softwares de aplicação — utilizados para tarefas como edição de documentos e gestão de folhas de pagamento — enfrentam uma ameaça estrutural provocada por ferramentas de IA cada vez mais avançadas.

IA como concorrente direta

Evans avalia que soluções de inteligência artificial já conseguem replicar e modificar grande parte dos softwares existentes. Com isso, empresas que antes dependiam de fornecedores passam a desenvolver ferramentas internamente para reduzir custos, além da concorrência de novas startups especializadas.

A percepção de disrupção já impactou o mercado. Um fundo negociado em bolsa que acompanha o setor de software nos Estados Unidos acumulou queda de 22% neste ano, enquanto ações de semicondutores avançaram impulsionadas pela demanda por poder computacional necessário para a IA.

O gestor vendeu participações em companhias como SAP, ServiceNow, Adobe e HubSpot, mantendo apenas uma pequena posição e algumas opções de compra na Microsoft.

Ele afirmou não ter intenção de retornar a esses papéis no curto prazo.

Mudança de estratégia

A carteira do fundo passou a concentrar investimentos em empresas ligadas à infraestrutura da nova economia digital. Sete das dez maiores posições ao fim de janeiro estavam em fabricantes de semicondutores, com destaque para a Nvidia, responsável por quase 10% do portfólio.

Além de chips, Evans demonstra otimismo com companhias de equipamentos de rede, fibra óptica e fornecimento de energia para data centers, setores diretamente ligados ao crescimento da computação avançada.

Ele também aumentou posições em empresas de software de infraestrutura, que dão suporte a aplicações digitais, como Cloudflare e Snowflake.

Resultados recentes de empresas desse segmento indicam aumento da demanda por infraestrutura de internet. As ações da Datadog subiram mais de 10% em uma semana, enquanto as da Fastly mais que dobraram no mesmo período.

Impactos financeiros

Segundo o gestor, a queda das ações de software pode gerar novos problemas financeiros para essas companhias. Como muitas remuneram funcionários com ações, a desvalorização pode exigir pagamentos maiores em dinheiro.

Além disso, tentativas de aquisição de startups de IA para impulsionar crescimento tendem a pressionar o fluxo de caixa livre.

Para Evans, o mercado ainda não precificou completamente a incerteza sobre o valor de longo prazo dessas empresas.

Debate em Wall Street

O tema divide analistas. Estrategistas do JPMorgan afirmaram recentemente que o setor pode se recuperar após a forte correção de preços e destacaram empresas como Microsoft e ServiceNow.

Evans, por outro lado, considera que apenas poucos segmentos devem resistir. Ele vê menor risco imediato em software de infraestrutura e cibersegurança, embora menos de 7% do fundo esteja alocado nessas áreas.

Fora desses nichos, ele prevê uma forte seleção natural, comparando o possível impacto da inteligência artificial sobre o software ao efeito da internet sobre jornais impressos nos anos 2000.

Na visão do gestor, investidores deveriam reduzir significativamente a exposição a softwares de aplicação e reagir rapidamente à evolução dos modelos de inteligência artificial.

Visão Bolso do Investidor

A discussão ilustra uma mudança estrutural dentro do setor de tecnologia: o valor pode migrar das aplicações para a infraestrutura que viabiliza a inteligência artificial. Se essa tendência se confirmar, empresas ligadas a chips, data centers, redes e energia podem ganhar protagonismo, enquanto modelos tradicionais de software enfrentam pressão competitiva. Para investidores, acompanhar como a IA altera cadeias de valor ajuda a entender quais segmentos tendem a capturar crescimento e quais podem enfrentar queda de margens no longo prazo.


Fontes:

  • InfoMoney
  • Bloomberg