Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 12 de novembro de 2025

No tradicional universo dos grandes fundos de pensão e soberanos, uma transformação silenciosa começa a redesenhar a forma como trilhões de dólares são aplicados ao redor do mundo. O que antes seguia uma fórmula quase imutável — dividir o portfólio entre ações, títulos e investimentos alternativos em proporções fixas — agora dá espaço a um modelo muito mais dinâmico e integrado, conhecido como Total Portfolio Approach (TPA).
Por décadas, a regra era simples: diversificação. Gestores de grandes fundos trabalhavam com estruturas rígidas, como 40% em ações, 40% em títulos e 20% em ativos alternativos, reequilibrando as carteiras periodicamente. Esse modelo, chamado de Alocação Estratégica de Ativos (SAA), baseava-se na ideia de manter o portfólio “em equilíbrio” ao longo do tempo. Mas em um mundo cada vez mais imprevisível, marcado por inflação, crises geopolíticas e disrupções tecnológicas, muitos acreditam que esse formato envelheceu.
Hoje, uma nova geração de gestores — de Singapura à Califórnia — defende que os investimentos devem ser analisados em conjunto, e não por “caixinhas” de ativos. O TPA parte da lógica de eliminar os silos tradicionais e comparar todas as oportunidades dentro de um mesmo portfólio, colocando ações listadas, crédito privado, infraestrutura e até fundos imobiliários para “competirem” entre si. O objetivo é simples: buscar a melhor combinação possível para o todo, e não apenas o melhor desempenho de cada parte isolada.
O caso CalPERS: um movimento histórico nos EUA
O modelo ganhou destaque com o CalPERS, o fundo de aposentadoria dos funcionários públicos da Califórnia — o maior dos Estados Unidos, com cerca de US$ 587 bilhões sob gestão. O fundo deve votar ainda este mês a adoção oficial do TPA. Caso seja aprovado, se juntará a gigantes como o GIC de Singapura, o Future Fund da Austrália e o CPP Investments do Canadá, todos adeptos dessa filosofia.
Stephen Gilmore, novo diretor de investimentos do CalPERS, apresentou o plano ao conselho em setembro, defendendo que a nova abordagem é mais eficaz para evitar excessos e falhas de diversificação.
“Com o modelo tradicional, cada classe de ativos tenta otimizar apenas o seu próprio desempenho. O problema é que, quando somamos tudo, o resultado pode ser inferior ao potencial máximo do portfólio como um todo”, explicou.
A proposta é ousada: o CalPERS substituirá seus 11 benchmarks específicos por um único “portfólio de referência”, composto por 75% em ações e 25% em títulos, com uma margem de risco ativo de até 400 pontos-base. A intenção é permitir maior liberdade às equipes internas para tomar decisões táticas, baseadas em oportunidades reais de mercado.
Resultados e desafios
A adoção do TPA não é apenas teórica. Um estudo de 2024 da consultoria Willis Towers Watson, em parceria com o Future Fund, mostrou que fundos que adotaram o modelo superaram os tradicionais SAA em 1,8 ponto percentual ao ano na última década. O Canada Pension Plan (CPP), que utiliza o TPA e administra US$ 522 bilhões, é um dos exemplos mais citados de sucesso.
Segundo Manroop Jhooty, chefe de Gestão Total de Fundos do CPP, o novo modelo oferece uma flexibilidade essencial. Ele cita o exemplo da alocação em private equity: “Se a fatia de private equity sobe acima do alvo, não precisamos vender esses ativos de forma apressada. Podemos reduzir a posição em ações listadas, já que ambos refletem a mesma dinâmica de risco.”
Esse tipo de decisão integrada é o que o TPA busca proporcionar — agilidade sem quebrar a estratégia global do fundo.
No entanto, o modelo também traz desafios. Por eliminar benchmarks fixos e transferir maior autonomia às equipes, ele exige governança sólida e transparência total.
“Você corre o risco de perder clareza sobre se suas decisões realmente estão agregando valor”, afirma Max Townshend, diretor de estratégia da Local Pensions Partnership Investments, do Reino Unido. “Mas, se for bem executado, o TPA pode ser tão flexível quanto o SAA — e muito mais eficaz.”
Adaptação cultural e quebra de paradigmas
Implementar o Total Portfolio Approach significa muito mais do que alterar planilhas. Envolve uma mudança cultural profunda.
“Quando começamos no fundo soberano da Nova Zelândia, todos éramos generalistas”, conta Brad Dunstan, co-diretor de investimentos do NZ Super Fund, considerado o segundo melhor fundo soberano do mundo segundo o ranking Global SWF. “Com o tempo, organizamos equipes por classe de ativos, mas sempre avaliando tudo em conjunto, buscando oportunidades e evitando preços inflados.”
A flexibilidade é o maior trunfo do TPA, permitindo ajustes rápidos conforme as condições do mercado. “Ele nos dá poder para mover o portfólio de forma mais drástica, se necessário. Todos trabalham na mesma direção — não há espaço para favoritismo de classes de ativos”, completa Dunstan.
Mesmo com os benefícios, há quem veja o movimento com cautela. Jayne Bok, chefe de investimentos da Willis Towers Watson na Ásia, diz que muitas instituições alegam seguir o TPA sem realmente aplicá-lo.
“Muita gente diz que já faz isso, mas são falsos”, afirmou. “O desafio é tirar o modelo do papel e aplicá-lo de verdade, o que requer confiança, agilidade e, principalmente, abandonar a mentalidade de que o passado dita o futuro.”
Um novo paradigma para a gestão global
A Ares Management, gestora de US$ 596 bilhões em ativos privados, afirma que o interesse pelo TPA está apenas começando. Segundo Avi Turetsky, chefe de pesquisa quantitativa da empresa, ainda não existe um formato “padrão”, mas o conceito representa um avanço inevitável.
“É mais uma aspiração do que uma estrutura pronta. Mas o TPA responde ao que o mundo precisa: uma forma mais adaptável, integrada e eficiente de investir.”
Enquanto alguns gestores ainda veem o modelo como uma moda passageira, outros acreditam que ele pode ser o novo norte da indústria global de investimentos — um caminho que une eficiência, flexibilidade e estratégia em um cenário cada vez mais volátil.
Visão Bolso do Investidor
O “Total Portfolio Approach” simboliza uma evolução natural na forma como grandes gestores encaram o risco e a diversificação. Ao invés de olhar para ativos isoladamente, o método busca sinergias entre classes, otimizando o portfólio como um organismo único.
Embora seja um modelo ainda em consolidação, a tendência reflete uma mudança importante: a valorização da gestão ativa, da análise global e da integração de dados em tempo real.
Para o investidor comum, a lição é clara — diversificar é importante, mas entender a correlação entre seus investimentos é essencial para gerar consistência no longo prazo.
Fontes:
- InfoMoney
