Guerra comercial entre EUA e China abre portas, mas também ameaça o Brasil, alertam especialistas

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 16/10/2025

A disputa tarifária entre Estados Unidos e China reacendeu uma complexa batalha geopolítica que atravessa três continentes e, de quebra, pressiona o Brasil em duas frentes opostas: ganhos econômicos expressivos e riscos ambientais crescentes. A soja, principal commodity agrícola brasileira, tornou-se o elo central desse conflito — ao mesmo tempo em que impulsiona o agronegócio, ameaça comprometer compromissos climáticos e políticas de conservação.


A soja e o novo xadrez geopolítico

A China consome milhões de toneladas de soja todos os anos, insumo essencial para ração animal e óleo de cozinha. Tradicionalmente, parte significativa dessa demanda era atendida pelos Estados Unidos. No entanto, a escalada tarifária imposta por Pequim em resposta às medidas protecionistas do governo Trump praticamente paralisou as compras de soja americana, abrindo uma brecha imediata para o Brasil.

O resultado é um aumento exponencial do interesse chinês pela soja brasileira — e, junto com ele, um incentivo crescente para que os produtores nacionais ampliem áreas de plantio, muitas vezes sobre regiões sensíveis do ponto de vista ambiental.
Essa mudança de rota comercial elevou o Brasil ao posto de maior exportador mundial da leguminosa e consolidou sua posição como principal fornecedor da China.


A disputa tarifária e os efeitos globais

O impasse começou com tarifas elevadas impostas pelos Estados Unidos a produtos chineses, provocando uma reação imediata de Pequim, que taxou fortemente a soja americana. Desde então, os embarques de grãos dos EUA para o mercado chinês despencaram — uma situação agravada por paralisações administrativas em Washington que atrasaram pacotes de compensação aos agricultores.

Enquanto isso, outros países tentaram ocupar o espaço deixado pelos norte-americanos. A Argentina, sob o governo de Javier Milei, reforçou laços comerciais com Donald Trump e aproveitou para expandir exportações de soja à China. Ainda assim, nenhum país se beneficiou tanto quanto o Brasil, cuja estrutura produtiva e capacidade logística permitiram atender a demanda chinesa em larga escala.


Brasil: ganhos econômicos e dilema ambiental

O salto nas exportações de soja fortalece a economia brasileira e o agronegócio, mas gera tensões internas. O lobby agrícola pressiona o governo federal para flexibilizar medidas de proteção ambiental, especialmente a Moratória da Soja — acordo criado para impedir o desmatamento na Amazônia destinado à expansão de lavouras.

Essa pressão surge em um momento delicado para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que sediará em novembro, em Belém, a próxima conferência internacional sobre o clima. O governo prometeu conter o desmatamento, mas enfrenta o desafio de equilibrar compromissos ambientais e o avanço econômico impulsionado pelas exportações.

“Há um ataque a um dos mecanismos mais importantes para o desmatamento zero”, afirmou Cristiane Mazzetti, do Greenpeace Brasil. A tensão entre metas ecológicas e expansão agrícola está no centro da disputa política.


O avanço da soja e a transformação do cerrado

A produção de soja brasileira cresceu de forma constante nas últimas décadas, acelerando principalmente após o início da guerra comercial entre EUA e China. Em 2017, no primeiro mandato de Donald Trump, o Brasil superou oficialmente os Estados Unidos e tornou-se o maior produtor global.

De lá para cá, a distância só aumentou. O vice-presidente da Aprosoja, Lucas Costa Beber, destacou que o Brasil atravessa um segundo ciclo de alta impulsionado pelo novo capítulo do conflito. “Se esta situação continuar, as oportunidades para o Brasil aumentarão”, disse ele.

Mas esse crescimento tem um custo ambiental alto. Segundo o MapBiomas, as lavouras de soja já ocupam 40,5 milhões de hectares — cerca de 14% das terras agrícolas do país. A maior parte desse avanço se concentra no cerrado, a maior savana tropical do planeta, responsável por alimentar as principais bacias hidrográficas do Brasil e regular o regime de chuvas em todo o território nacional.


O cerrado sob pressão

Embora o desmatamento tenha caído no último ano, metade da vegetação original do cerrado já desapareceu.
Segundo Luciana Gatti, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a tendência é de agravamento:

“O cerrado está desaparecendo, e a pressão para produzir soja para exportar à China será maior.”

Somente em 2023, mais de 445 mil hectares de áreas recém-desmatadas foram usados para o cultivo de soja no bioma, de acordo com dados da organização Trase — uma área superior ao tamanho do estado de Rhode Island, nos EUA.


Moratória da Soja: futuro em disputa

Criada em 2008, a Moratória da Soja proíbe que grandes tradings e processadoras financiem ou comprem grãos cultivados em áreas desmatadas na Amazônia após aquele ano. O acordo, reconhecido internacionalmente, foi fundamental para reduzir o desmatamento no bioma.

Em 2023, por exemplo, apenas 150 mil hectares de lavouras amazônicas estavam em áreas recém-desmatadas — um número muito inferior ao registrado no cerrado.

No entanto, a pressão do setor produtivo aumentou. Em agosto, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) chegou a suspender temporariamente a moratória, alegando suspeita de conluio entre empresas. A decisão foi revertida por um tribunal federal, mas o episódio reacendeu dúvidas sobre o futuro da política.

Representantes do agronegócio, como Lucas Beber, classificam o pacto como “barreira comercial disfarçada de proteção ambiental” e defendem a expansão sobre pastagens degradadas no cerrado. “Depende apenas da viabilidade econômica e de mercado”, afirmou.


O lado americano: incerteza e perdas

Nos Estados Unidos, a situação é de alerta. A soja é o principal produto agrícola do país, mas a disputa comercial ameaça sua sustentabilidade.
Segundo a Associação Americana de Soja, o setor pode perder seu principal cliente — a China —, responsável por US$ 12,6 bilhões em exportações no último ano.

As tarifas também aumentaram os custos de fertilizantes e equipamentos, comprimindo margens de lucro. Trump tem alternado sinais sobre uma possível reunião com o presidente Xi Jinping em uma cúpula na Coreia do Sul — e o tema “soja” certamente estará no centro das negociações.


Visão do Bolso do Investidor

A guerra comercial reacende um dilema estratégico: enquanto os conflitos entre potências abrem oportunidades para países exportadores como o Brasil, também expõem vulnerabilidades ambientais, cambiais e logísticas.

Para o investidor brasileiro, o movimento indica duas direções distintas:

  1. Setorialmente, o agronegócio e as exportadoras de commodities devem seguir fortalecidas.
  2. Macroeconomicamente, a exposição crescente à demanda chinesa amplia riscos externos e pressões políticas.

O desafio está em equilibrar ganhos de curto prazo com sustentabilidade de longo prazo. Um colapso ambiental no cerrado, por exemplo, poderia elevar custos agrícolas e gerar sanções internacionais — o que afetaria diretamente a imagem e os ativos brasileiros no exterior.


Conclusão e pontos de atenção

O conflito comercial entre EUA e China redefine cadeias globais e coloca o Brasil em posição estratégica — tanto como beneficiário quanto como responsável ambiental.
Para o mercado, os indicadores-chave a acompanhar são:

  • Exportações brasileiras de soja e sua origem geográfica (cerrado x Amazônia);
  • Decisões sobre a Moratória da Soja e políticas ambientais do governo;
  • Oscilações cambiais ligadas ao apetite chinês;
  • Avanço ou recuo das tarifas bilaterais entre Washington e Pequim.

A forma como o Brasil equilibrar lucro e preservação determinará seu papel nesse novo tabuleiro global — e o impacto direto sobre sua economia, imagem internacional e ambiente de investimentos.



Fontes: InfoMoney