IA assume trabalho operacional de gestores e força empresas a redefinir expectativas

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 22 de dezembro de 2025

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio e já começa a remodelar, de forma concreta, a estrutura das empresas modernas. Organizações como Amazon, Moderna e McKinsey estão eliminando camadas intermediárias de gestão, achatando hierarquias e adotando agentes de IA para automatizar tarefas rotineiras antes atribuídas a líderes humanos.

Essa transformação no organograma corporativo foi amplamente debatida por executivos e especialistas durante a conferência Fortune Brainstorm AI, onde o consenso foi claro: a IA está assumindo grande parte do trabalho operacional da gestão, permitindo que humanos se afastem de atividades burocráticas e repetitivas.

A sobrecarga administrativa da gestão moderna

Atualmente, gestores gastam uma parcela significativa do tempo lidando com ferramentas digitais, relatórios, reuniões improdutivas e tarefas administrativas. Danielle Perszyk, cientista cognitiva do AGI SF Lab da Amazon, destacou que tanto gestores quanto colaboradores individuais acabam presos a telas e aplicativos de produtividade que, paradoxalmente, reduzem a eficiência no trabalho.

Segundo ela, agentes de IA atuando como verdadeiros “colegas universais” podem assumir essas tarefas operacionais, liberando os gestores para se concentrarem em decisões estratégicas, planejamento e direcionamento de equipes.

O novo papel do gestor na era da IA

Para Aashna Kircher, gerente-geral da diretoria executiva de RH da Workday, a automação promovida pela IA pode devolver aos gestores aquilo que sempre deveria ter sido sua principal função: atuar como coaches, facilitadores e líderes de equipes. Toby Roberts, vice-presidente sênior de engenharia e tecnologia da Zillow, acrescenta que, ao eliminar as minúcias do dia a dia, a IA pode permitir que gestores supervisionem equipes maiores, alterando de forma estrutural o modelo tradicional de liderança.

No entanto, essa transição exige que as empresas redefinam o que significa gerir pessoas. Kircher ressalta que, historicamente, a gestão sempre foi avaliada pelo desempenho das equipes, e não pelas competências humanas do líder. Com a IA assumindo parte do trabalho técnico, será necessário criar novas estruturas de responsabilização e incentivos que valorizem habilidades críticas para o futuro, como liderança, comunicação e desenvolvimento de pessoas.

Os limites da inteligência artificial na liderança

Apesar dos ganhos de eficiência, o uso excessivo da IA na gestão pode trazer efeitos colaterais indesejados. Kate Niederhoffer, cientista-chefe do BetterUp Labs, alerta que a dependência exagerada de agentes de IA em atividades colaborativas pode enfraquecer a capacidade das pessoas de trabalhar juntas de forma eficaz.

Segundo ela, a percepção dos colaboradores sobre seus gestores piora quando identificam que a IA é utilizada em momentos sensíveis, como reconhecimento profissional ou feedback construtivo. Nessas situações, as pessoas percebem claramente que interações humanas autênticas são insubstituíveis.

O desafio é ainda maior considerando que muitos líderes se tornaram “gestores acidentais”, promovidos por competência técnica, e não por habilidades interpessoais. Para Stefano Corazza, chefe de pesquisa em IA da Canva, a chamada “empatia sintética” da IA não resolve esse problema. Segundo ele, quanto mais a IA se expande, mais a autenticidade humana se torna valiosa. Gestores que demonstram atenção genuína, presença e interesse real pelo desenvolvimento de suas equipes tendem a fazer uma diferença significativa no ambiente de trabalho.

Visão Bolso do Investidor

A ascensão da inteligência artificial na gestão corporativa sinaliza uma mudança profunda na forma como as empresas operam e avaliam a liderança. Ao assumir tarefas operacionais e administrativas, a IA tende a aumentar a eficiência e reduzir custos, mas também impõe um novo desafio: redefinir o valor do gestor humano.

Nesse novo cenário, habilidades técnicas deixam de ser o principal diferencial. Comunicação, empatia, visão estratégica e capacidade de desenvolver pessoas passam a ocupar o centro da liderança. Para profissionais e investidores, entender essa transição é essencial, pois ela influencia produtividade, cultura organizacional, decisões de capital humano e, no longo prazo, o desempenho financeiro das empresas.

Fontes: Infomoney