IA vai substituir operários? Cortes na Amazon mostram que os gerentes serão os primeiros

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 30 de outubro de 2025

Enquanto o debate global se concentra no impacto da inteligência artificial (IA) sobre os trabalhadores braçais, a realidade mostra um movimento diferente.
A Amazon, gigante do comércio eletrônico e símbolo da automação industrial, anunciou nesta terça-feira (29) a demissão de 14 mil gerentes de nível médio — cerca de 4% de sua força de trabalho corporativa — como parte de uma reestruturação voltada à redução de camadas hierárquicas e aumento da eficiência.

A decisão veio poucos dias após a divulgação de documentos vazados sugerindo que a empresa poderia substituir meio milhão de empregos em armazéns por robôs. No entanto, o corte atingiu primeiro os trabalhadores de escritório, não os operários.

Beth Galetti, vice-presidente sênior de experiência do pessoal da Amazon, afirmou que a medida busca “tornar a empresa mais enxuta e ágil” em meio à expansão dos investimentos em IA generativa.
A estratégia reflete a aposta de que algoritmos podem assumir funções de coordenação, análise e tomada de decisão antes desempenhadas por gestores humanos.

A nova disrupção: o colarinho branco sob risco

Nos últimos meses, o CEO Andy Jassy tem sido direto ao tratar do impacto da IA no quadro de funcionários.

Precisaremos de menos pessoas fazendo alguns dos trabalhos que estão sendo feitos hoje”, afirmou, destacando que as ferramentas de IA já ajudam equipes a “avançar mais rápido e tomar melhores decisões”.

Essa transformação começa justamente nas camadas intermediárias de gestão, tradicionalmente responsáveis por relatórios, memorandos e sínteses — tarefas nas quais a IA generativa tem se mostrado especialmente eficiente.

Analistas apontam que a substituição de gerentes por IA é o primeiro passo de uma reorganização corporativa global. Segundo estimativas da Gartner, até 2026 uma em cada cinco empresas deve usar IA para eliminar pelo menos metade de suas camadas de gestão.

A Amazon, que por décadas simbolizou a automação do trabalho operário, agora se torna o exemplo mais visível de que a próxima onda de disrupção afetará o colarinho branco.

O efeito “achatar a hierarquia”

O movimento da Amazon acontece em meio a um cenário econômico de contratações mais lentas e cortes seletivos.
O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, alertou que os EUA vivem uma fase de “low-hire, low-fire” — de pouca contratação e pouca demissão —, em que as empresas evitam ampliar equipes mesmo com crescimento econômico.

Se as pessoas estão se tornando mais produtivas, você não precisa contratar mais gente”, disse Brian Chesky, CEO do Airbnb, ao Wall Street Journal.

Outras grandes companhias seguiram o mesmo caminho: a Target anunciou sua primeira rodada de cortes em uma década, com 2 mil demissões, e a Paramount reduziu 1 mil postos de trabalho após sua fusão com a Skydance.

O relatório mais recente da Challenger, Gray & Christmas mostra que os empregadores norte-americanos já anunciaram 946 mil cortes de empregos em 2025, o maior número desde 2020.
Mais de 17 mil desses desligamentos foram atribuídos diretamente à inteligência artificial, e outros 20 mil, à automação e a “atualizações tecnológicas”.
As empresas de tecnologia sozinhas já cortaram 108 mil empregos neste ano, enquanto o varejo registrou aumento de 203% nas demissões em relação a 2024.

“Períodos com tantos cortes de empregos só ocorreram em momentos de recessão ou nas primeiras ondas de automação da manufatura”, disse Andy Challenger, vice-presidente sênior da consultoria.

Visão do Bolso do Investidor

A decisão da Amazon simboliza uma nova etapa da automação corporativa, na qual a inteligência artificial não substitui apenas tarefas repetitivas, mas redefine a estrutura hierárquica das empresas.
Enquanto os robôs industriais mudaram o chão de fábrica, a IA generativa está reescrevendo a gestão corporativa — reduzindo custos, mas também eliminando níveis inteiros de supervisão.

Para investidores, o movimento indica duas tendências de longo prazo:

  1. Ganho de produtividade estrutural em grandes corporações de tecnologia;
  2. Risco de aumento do desemprego estrutural entre profissionais administrativos, o que pode afetar renda e consumo em economias avançadas.

Conclusão

O caso da Amazon marca um divisor de águas: a automação não é mais apenas uma questão de robôs substituindo operários, mas de algoritmos substituindo gestores.
A revolução da IA promete ganhos expressivos de eficiência — mas também um redesenho profundo das relações de trabalho e da hierarquia empresarial nas próximas décadas.



Fontes:

  • InfoMoney