Inadimplência alta e crédito caro reduzem fôlego do varejo para Black Friday e Natal

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 14 de novembro de 2025

O varejo brasileiro entra no período mais aquecido do ano — Black Friday e Natal — sob um cenário desafiador. Mesmo com a expectativa de aumento nas vendas, o setor projeta um final de ano mais moderado do que em 2024, pressionado principalmente pela inadimplência recorde, juros elevados e inflação ainda resistente no orçamento das famílias. Segundo dados da Serasa, o Brasil atingiu 79,1 milhões de inadimplentes em setembro. A maior parte das dívidas está concentrada em bancos e cartões de crédito, seguida por contas básicas e financeiras. Em média, cada inadimplente acumula quatro dívidas negativadas, totalizando R$ 6.267,69. Esse cenário restringe o consumo e compromete a intenção de compras, mesmo em períodos de grandes promoções.

Ao mesmo tempo, a inflação dá sinais de desaceleração, mas segue suficiente para manter a taxa Selic no patamar elevado de 15%, conforme decisão recente do Copom. Apesar da projeção de início dos cortes em 2026, especialistas e casas de investimento esperam que o ano termine com uma Selic ainda alta, próxima de 12%. Isso encarece tanto o crédito aos consumidores quanto o capital de giro das empresas — um freio importante para as vendas de fim de ano. Para o Sindilojas-SP, a inadimplência é hoje o principal obstáculo ao desempenho do varejo. Em São Paulo, 72,7% das famílias estão endividadas, o maior patamar em dois anos. As famílias com contas em atraso chegam a 22,7%, também no maior nível desde 2023. O cenário mantém o otimismo do setor em um nível mais contido: em 2024, o varejo paulistano registrou avanço real de 6,7% nas vendas de dezembro, resultado que não deve se repetir com a mesma força em 2025.

Mesmo com a injeção de R$ 30,8 bilhões do 13º salário na economia paulistana, parte relevante desse valor deverá ser direcionada ao pagamento de dívidas, reduzindo o impacto positivo sobre as compras. Segundo o Sindilojas-SP, o bom desempenho do primeiro semestre e a estabilidade do emprego sustentam algum otimismo, mas a combinação de juros altos, crédito restrito e endividamento limita o poder de compra das famílias. Além do ambiente de consumo fragilizado, o varejo enfrenta dois desafios operacionais: estoques menores e dificuldade para contratar temporários. Em outubro, apenas 53% das empresas declararam ter estoques adequados — reflexo do crédito caro, que reduz a capacidade de reposição. O mercado de trabalho aquecido também diminui a oferta de mão de obra temporária, tornando a seleção mais competitiva. A expectativa do setor é contratar cerca de 7 mil temporários em São Paulo, ligeiramente acima do registrado no ano anterior.

Diante desse quadro, especialistas recomendam cautela. Para evitar comprometer o caixa, o varejo deverá apostar em promoções bem planejadas, foco em descontos à vista e estímulo ao pagamento parcelado nos cartões — que garantem o recebimento ao lojista, mesmo com custos de operação. A estratégia também inclui criar um histórico de bons pagadores para ofertas futuras e ajustar os estoques de forma precisa para não exceder. A expectativa geral é de um dezembro positivo, mas longe de replicar os grandes saltos de anos anteriores. Em segmentos como vestuário, calçados e supermercados, a sazonalidade seguirá favorável, mas em ritmo moderado.

Visão Bolso do Investidor

Para investidores, o desempenho do varejo no fim de ano funciona como termômetro importante para avaliar consumo, efeitos da política monetária e a saúde financeira das famílias. Os números reforçam como juros altos e inadimplência impactam diretamente o ciclo econômico. A performance das varejistas listadas na Bolsa, por exemplo, deve refletir esse ambiente de pressão, exigindo atenção redobrada aos balanços do quarto trimestre.

Fontes: Serasa Experian; Sindilojas-SP; Fecomercio-SP; Comitê de Política Monetária (Copom); Infomoney