Inadimplência dispara em setembro e alcança recorde histórico entre famílias brasileiras

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 09/10/2025


Famílias mais pressionadas: contas vencidas atingem novo recorde

O percentual de famílias com contas em atraso chegou a 30,5% em setembro, o maior nível desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
O dado reflete o agravamento da situação financeira das famílias brasileiras diante do crédito caro, da alta dos juros e do encarecimento do custo de vida.

Segundo o levantamento, 13% das famílias afirmaram que não terão condições de quitar as dívidas atrasadas, o que reforça a tendência de manutenção da inadimplência nos próximos meses.


Endividamento médio das famílias atinge quase R$ 3 mil por mês

O endividamento médio das famílias brasileiras chegou a 79,2% em setembro, o que significa que quase 8 em cada 10 famílias possuem algum tipo de dívida ativa — mesmo que ainda em dia.
Considerando uma renda média familiar mensal de R$ 6.500, o volume médio de compromissos financeiros equivale a 44% da renda, ou cerca de R$ 2.860 por família por mês.

Entre as famílias mais comprometidas, 18,8% afirmaram que mais da metade da renda mensal (entre R$ 3.500 e R$ 4.000) já está destinada ao pagamento de dívidas.
O tempo médio de endividamento é de 7,5 meses, o que representa um estoque médio de dívidas acumuladas de aproximadamente R$ 21 mil por família endividada.


Cartão de crédito lidera disparado as dívidas das famílias

Entre os brasileiros endividados, o cartão de crédito continua sendo o principal responsável pela perda de equilíbrio financeiro.
Ele está presente em 86,3% dos casos e representa, sozinho, cerca de R$ 18 mil do total médio de endividamento por família.

Outras fontes de dívida incluem:

  • Carnês de loja: 17,8% das famílias, com dívida média de R$ 3.700;
  • Financiamento de veículos: 11,5%, com saldo médio de R$ 8.000;
  • Empréstimos pessoais e consignados: 9,2%, com média de R$ 5.500;
  • Financiamentos imobiliários: 8,4%, com média de R$ 13.000.

Além disso, 48,7% das famílias inadimplentes estão com contas vencidas há mais de 90 dias, o que eleva encargos, juros e reduz as chances de renegociação.


Baixa renda é a mais afetada, mas endividamento cresce em todas as faixas

O quadro é ainda mais crítico entre as famílias de baixa renda (até três salários mínimos), onde o endividamento subiu de 81,1% em agosto para 82% em setembro.
Mesmo entre as famílias com renda superior a dez salários mínimos, o índice aumentou — de 68,7% para 69,5% —, mostrando que o problema se espalhou por todas as classes sociais.

A CNC também destacou que o tempo médio de endividamento vem aumentando e que o crédito está sendo utilizado, cada vez mais, para complementar a renda e cobrir despesas básicas, como alimentação e moradia, em vez de financiar consumo ou investimentos.


Impactos sobre o consumo e o crescimento econômico

O aumento da inadimplência e o alto comprometimento da renda têm impacto direto no consumo das famílias, que responde por mais de 60% do PIB brasileiro.
Com o crédito caro e a taxa Selic mantida em 15% ao ano, cresce o número de consumidores que recorrem ao cartão de crédito e ao crédito pessoal como extensão do salário — um caminho que se torna insustentável no médio prazo.

O comércio e o setor de serviços já sentem os efeitos: o volume de vendas parceladas recuou e o tempo de endividamento é o maior desde 2019, indicando uma fadiga financeira nas famílias.


Conclusão: o país vive uma “crise silenciosa” no orçamento das famílias

O recorde de 30,5% de inadimplência e o endividamento médio de R$ 2.860 mensais por família mostram que o Brasil vive uma crise silenciosa — menos perceptível que a inflação, mas devastadora no longo prazo.
O cartão de crédito, antes um aliado do consumo, tornou-se o principal foco de desequilíbrio financeiro.

Sem uma política coordenada de redução de juros, educação financeira acessível e incentivo à renegociação, a tendência é que a inadimplência continue alta e o consumo siga desaquecido.
Mais do que números, os dados revelam a necessidade urgente de reequilibrar as finanças pessoais das famílias para garantir estabilidade econômica e social.


Fontes: InfoMoney