Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 17 de novembro de 2025

Os sucessivos recordes do Ibovespa e a expectativa de nova redução da taxa básica de juros pelo Banco Central criam um ambiente mais favorável para a retomada das ofertas de ações na bolsa brasileira. A combinação de menor custo de capital, fluxo estrangeiro crescente e empresas em busca de reforço de caixa tende a impulsionar principalmente as ofertas subsequentes — os chamados follow-ons — ainda neste fim de ano e no início de 2026.
Motivos como desalavancagem, recomposição de caixa antes das eleições, venda de participações por grandes acionistas e até antecipações de dividendos diante da nova tributação compõem os principais fatores que podem levar companhias já listadas a emitir novas ações.
Já as aberturas de capital (IPOs), ausentes no mercado brasileiro desde 2021, ainda devem demorar a voltar. O cenário político e a incerteza em relação ao próximo governo empurram as perspectivas para mais adiante.
“A seca de IPOs está perto do fim, mas a volta desse mercado é mais provável no fim de 2026 ou em 2027”, afirma George Costa e Silva, responsável pela área de Mercados de Capitais de Renda Variável do Bradesco.
Segundo ele, o banco analisa cinco ofertas subsequentes com potencial de serem lançadas ainda em 2025 ou no começo de 2026.
Mercado desaquecido, mas com sinais de retomada
As ofertas de ações ajudam a aumentar a liquidez e a entrada de novos nomes na bolsa — algo que não ocorre desde 2021. Nos últimos anos, as operações têm se concentrado em companhias já listadas, seja em emissões primárias, que levantam recursos para a empresa, ou em emissões secundárias, quando o acionista vende parte de sua participação.
Em 2025, foram realizadas nove ofertas públicas, mesmo número de 2024, mas ainda o menor patamar desde 2018, segundo dados da Anbima. Grande parte dessas emissões foi direcionada à redução de dívidas — como ocorreu com a Cosan, que sozinha captou R$ 10,5 bilhões apenas em novembro, respondendo por mais de dois terços dos R$ 15 bilhões levantados no ano.
Alta concentrada em poucos setores favorece novas emissões
Apesar de o Ibovespa estar no maior nível da história, a valorização é puxada por setores específicos — como bancos, telecomunicações e energia — que, em geral, não precisam emitir ações. Ainda assim, essa alta concentrada tende a beneficiar o mercado de ofertas, já que gestoras costumam reaplicar ganhos obtidos nesses papéis, alimentando o fluxo para novas operações.
“O terreno para as ofertas está arado, a semente plantada, e logo entraremos na fase da colheita com juros mais baixos e maior atividade”, diz Costa e Silva.
A saturação da renda fixa, com queda nas taxas de crédito privado — especialmente em papéis incentivados — também pode estimular uma migração gradual para renda variável.
Razões que devem levar empresas a levantar recursos
A desalavancagem é um dos principais motores das emissões, caso que pode se repetir em empresas de consumo e varejo. Captações para investimentos também devem ocorrer, mesmo em ano eleitoral.
Outro fator relevante é a preparação para oportunidades nos setores de energia e infraestrutura.
“Teremos leilões importantes em 2026 e empresas vão reforçar caixa para ajustar estrutura de capital usando renda variável, e não apenas renda fixa”, afirma Castelo Branco.
Também estão no radar ofertas secundárias — em que grandes acionistas ou fundos de private equity reduzem posição aproveitando a valorização recente da bolsa.
“São três temas principais: desalavancagem, investimento e reciclagem de portfólio, tudo isso se antecipando ao ano eleitoral”, diz Castelo Branco.
Tributação de dividendos pode estimular novas ofertas
A nova tributação de dividendos aprovada no Congresso deve acelerar algumas emissões ainda neste ano. Algumas empresas podem fazer ofertas primárias para levantar recursos e pagar dividendos antes da retenção obrigatória de 10% que começará a valer em 2026.
IPOs: volta gradual e só após maior visibilidade política
Embora o ambiente melhore para follow-ons, a retomada de IPOs depende de mais estabilidade estrutural.
“Os IPOs vão exigir uma janela de longo prazo, com clareza sobre o próximo governo, equilíbrio fiscal, investimentos e a dinâmica dívida/PIB”, afirma Castelo Branco.
Por isso, a expectativa é que as aberturas de capital ocorram mais a partir de 2027. O último grande ciclo desse mercado ocorreu em 2019, quando a queda dos juros levou a 46 IPOs — quase igualando o recorde de 2007.
IPOs no exterior podem ser exceção
Um cenário alternativo envolve empresas brasileiras buscando listar ações fora do país, especialmente nos Estados Unidos. Setores com forte desempenho global — como bancos e fintechs — podem considerar essa via antecipadamente, seguindo exemplos como XP, PagSeguro, Stone e Nubank.
Janelas curtas para ofertas no fim do ano
Para operações ainda em 2025, o prazo é apertado:
“Este é o último mês para apertar o botão. Dependemos dos investidores estrangeiros e temos até 28 de novembro para colocar ofertas na rua”, diz Castelo Branco. Passado esse período, novas operações devem ser empurradas para 2026.
Visão Bolso do Investidor
A combinação de Bolsa em máxima histórica, juros em queda e maior apetite estrangeiro cria um ambiente positivo para follow-ons, especialmente em empresas que buscam reorganizar balanços ou se preparar para oportunidades estratégicas.
A retomada dos IPOs, contudo, exige previsibilidade política e econômica — elementos que só devem ficar claros após as eleições. Para investidores, o momento reforça a importância de acompanhar:
- o nível de endividamento das companhias,
- a qualidade do uso dos recursos captados,
- e o tipo de emissão (primária ou secundária).
Em ciclos de recuperação, ofertas podem representar oportunidades, mas também exigem análise cuidadosa sobre governança, preço e fundamentos.
Fontes:
- InfoMoney
