Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 12 de fevereiro de 2026

As mudanças nas regras do Imposto de Renda voltadas para contribuintes de baixa e média renda devem ampliar a renda disponível das famílias e impulsionar o consumo em 2026, com reflexos diretos nas vendas do varejo já nos primeiros meses do ano.
A proposta prevê isenção para quem recebe até R$ 5 mil por mês e descontos para rendimentos de até R$ 7.350. Segundo estimativas de analistas, a medida pode beneficiar entre 15 milhões e 18 milhões de declarações, aumentando a capacidade de compra de uma parcela relevante da população.
De acordo com Tiago Sbardelotto, economista da XP Investimentos, o ganho individual pode parecer limitado, mas o efeito agregado é significativo. “Embora a liberação de renda seja pequena, são R$ 312,89 para quem ganha até R$ 5 mil, o público que vai usufruir dela é muito grande. É como dar mais de R$ 300 todo mês para ao menos 15 milhões de pessoas”, avaliou.
Renda disponível das famílias deve crescer em 2026
A XP projeta que a renda real disponível das famílias brasileiras avance 4,5% ao longo de 2026, impulsionada pelo mercado de trabalho aquecido e pelos reajustes salariais acima da inflação.
Desse total, cerca de 0,6 ponto percentual está diretamente relacionado às mudanças no Imposto de Renda. Segundo o economista, trata-se de um evento econômico relevante, com potencial de estimular o consumo de forma ampla.
A expectativa é que o aumento da renda chegue rapidamente ao comércio, aparecendo nos resultados das empresas varejistas listadas em bolsa ainda no primeiro trimestre do ano.
Tributação maior sobre alta renda compensa parte das perdas fiscais
Como contrapartida à ampliação das isenções, o governo propôs maior tributação sobre contribuintes de renda mais elevada.
Entre as medidas estão a retenção de 10% sobre dividendos pagos a pessoas físicas que recebam mais de R$ 50 mil mensais, a mesma alíquota para dividendos enviados ao exterior e a criação de um imposto mínimo progressivo para rendas anuais superiores a R$ 600 mil, limitado a 10%, chamado de Imposto de Renda da Pessoa Física Mínimo (IRPFM).
Essas mudanças devem reduzir a renda disponível de aproximadamente 140 mil a 150 mil pessoas. No entanto, segundo as estimativas, a retração nesse grupo não é suficiente para neutralizar o aumento do consumo entre as faixas de menor renda.
Diferença no comportamento de consumo amplia efeito no varejo
A explicação para o impacto líquido positivo está no padrão de consumo de cada faixa de renda. Indivíduos de baixa e média renda tendem a gastar uma parcela maior do dinheiro extra recebido. A propensão marginal a consumir desse grupo é estimada em 70%. Já entre os contribuintes de renda mais alta, esse percentual é bem menor, em torno de 5%.
Na prática, a cada R$ 100 liberados para as famílias beneficiadas, cerca de R$ 70 devem ser direcionados ao consumo. Por outro lado, a cada R$ 100 retirados das classes mais altas, apenas R$ 5 deixariam de circular na economia, resultando em efeito líquido positivo para o comércio.
O Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) calcula que a desoneração do IR pode injetar R$ 26,2 bilhões na economia, sendo R$ 20,9 bilhões destinados a trabalhadores do setor formal e R$ 5,3 bilhões a servidores públicos.
Impacto no setor imobiliário é visto como limitado
Embora parte do mercado avalie que o aumento da renda possa estimular financiamentos habitacionais, especialistas consideram que o efeito sobre o setor imobiliário deve ser mais moderado.
Filipe Pontual, diretor executivo da Abecip, afirmou que pode haver algum impacto positivo, especialmente para famílias enquadradas nas faixas do programa Minha Casa, Minha Vida, mas ressaltou que o efeito ainda não foi mensurado.
Inês Magalhães, vice-presidente de Habitação da Caixa Econômica Federal, também ponderou que a renda extra pode não ser automaticamente direcionada para aquisição de imóveis, destacando a importância da educação financeira para estimular investimentos.
Além disso, fatores como oferta de crédito, juros e orçamento público para subsídios continuam sendo determinantes para o desempenho do setor.
Visão Bolso do Investidor
A ampliação da renda disponível para milhões de brasileiros tende a favorecer principalmente setores ligados ao consumo básico e varejo, que costumam responder rapidamente a aumentos no poder de compra das famílias.
Para investidores, o movimento pode influenciar o desempenho de empresas expostas ao mercado doméstico, especialmente varejistas, supermercados e serviços. Ao mesmo tempo, a maior tributação sobre alta renda e dividendos pode alterar estratégias de alocação de capital. A evolução do consumo e dos resultados corporativos nos próximos trimestres será um indicativo importante do alcance dessas medidas na economia real.
Fontes: InfoMoney
