Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 03 de dezembro de 2025

Nicolás Maduro reforçou de maneira significativa sua segurança pessoal diante do aumento das tensões com os Estados Unidos, que passaram a reunir navios de guerra e embarcações de ataque na região do Caribe. Segundo fontes próximas ao governo venezuelano, o presidente adotou medidas extraordinárias para reduzir o risco de um ataque direcionado, incluindo a troca constante de camas, mudanças frequentes de local para dormir e uso de celulares descartáveis.
As medidas de proteção, que já existiam em menor escala, foram intensificadas desde setembro, quando o governo Trump passou a acusar a Venezuela de participar de operações de narcotráfico. Além disso, Maduro ampliou a presença de agentes cubanos em sua segurança pessoal e colocou oficiais de contrainteligência de Cuba em postos estratégicos das Forças Armadas venezuelanas, em uma tentativa de reduzir o risco de traições internas.
Mesmo diante dessa mobilização de bastidores, Maduro tem tentado demonstrar normalidade, aparecendo em eventos públicos sem aviso prévio, gravando vídeos descontraídos para as redes sociais e mantendo a rotina de propaganda digital. Porém, fontes ligadas ao governo afirmam que o clima entre seus aliados é de tensão profunda, com receio real de uma intervenção militar ou ataque cirúrgico.
As sete pessoas que descreveram os bastidores do governo venezuelano pediram anonimato, alegando risco de retaliação ou falta de autorização para falar com a imprensa. O Ministério da Comunicação da Venezuela não respondeu aos pedidos de comentário.
A administração Trump acusa Maduro de comandar um suposto cartel narcoterrorista e utiliza essa narrativa como justificativa para a pressão militar crescente. Apesar disso, o próprio Trump tem alternado ameaças com sinais de abertura diplomática. No mês passado, ele chegou a falar por telefone com Maduro sobre a possibilidade de uma reunião futura.
O The New York Times revelou que representantes do governo venezuelano e da Casa Branca discutiram, no início do ano, condições para uma possível saída de Maduro do poder. As negociações fracassaram, e Washington decidiu reforçar a estratégia de pressão militar e política.
Conforme a crise se agravou, Maduro passou a se dirigir diariamente ao público em transmissões oficiais. Embora continue aparecendo em vídeos e eventos, reduziu sua presença em agendas planejadas e transmissões ao vivo, preferindo aparições inesperadas ou mensagens pré-gravadas para dificultar sua localização.
A trajetória de Maduro é marcada por crises sucessivas desde 2013, quando assumiu o poder após a morte de Hugo Chávez. Ex-motorista de ônibus, sindicalista, ativista de esquerda e ex-chanceler, ele enfrentou queda de mais de 70% no PIB per capita, ondas de protestos nacionais, tentativas de golpe e duras sanções internacionais. Em várias ocasiões, analistas previram sua saída do poder, mas ele sobreviveu a todos os episódios consolidando controle institucional e fortalecendo alianças dentro da elite militar e política.
Apesar de erros públicos lembrados de forma irônica por críticos, como comer uma empanada escondido durante pronunciamento em meio a uma crise alimentar ou ser atingido por uma manga lançada por uma apoiadora, episódio conhecido como Mangocídio, Maduro demonstrou habilidade política para permanecer no comando.
A manutenção do poder custou caro à democracia venezuelana. Com o passar dos anos, Maduro acelerou o processo iniciado por Chávez de enfraquecimento das instituições democráticas. Mídias independentes foram fechadas, opositores foram impedidos de disputar eleições e organizações da sociedade civil passaram a ser criminalizadas. As forças de segurança ampliaram o uso de violência letal, com relatos de execuções e repressão severa.
No ano passado, Maduro ignorou o resultado de uma eleição presidencial que perdeu por quase 40 pontos percentuais, cruzando, segundo especialistas, a última fronteira democrática. A decisão destruiu o que restava de legitimidade popular e aprofundou a crise política interna.
Fontes próximas ao governo afirmam que, apesar da retórica pública, Maduro está consciente da gravidade da situação, sobretudo da crise de legitimidade. Segundo Andrés Izarra, ex-ministro do governo Chávez que deixou o país, Maduro opera com lógica de sobrevivência política, baseada em favores, pactos internos e incentivos econômicos distribuídos a aliados militares e civis.
Parte da estratégia envolve permitir que setores das Forças Armadas controlem segmentos-chave da economia, como mineração de ouro, empresas de serviços petrolíferos e importações, fortalecendo laços de dependência e lealdade.
Embora o governo Trump esteja combinando ameaças militares com tentativas diplomáticas, a possibilidade de negociações bem-sucedidas é reduzida. Durante conversas de bastidores, chegou-se a discutir a hipótese de um referendo revogatório em 2027, permitido pela constituição venezuelana, que poderia levar Maduro a transferir o poder a um vice-presidente caso fosse derrotado. Nenhuma das propostas avançou.
Mesmo que um acordo fosse firmado, fontes afirmam que a crise de legitimidade permaneceria sendo o maior desafio para o governo Maduro. A rejeição interna é vista como profunda e irreversível, independentemente da movimentação militar americana ou eventual recuo da Casa Branca.
Visão Bolso do Investidor
A escalada das tensões entre Estados Unidos e Venezuela adiciona um componente relevante de risco geopolítico, especialmente para mercados relacionados a petróleo, logística e comércio exterior. Situações de instabilidade política prolongada podem provocar ajustes nos preços de commodities e na percepção de risco de países emergentes. Para investidores, monitorar a evolução das negociações diplomáticas, das movimentações militares e da estabilidade institucional venezuelana é essencial para avaliar impactos potenciais no curto e no médio prazo, inclusive sobre as expectativas de oferta global de petróleo e fluxos internacionais de capital.
Fontes:
- The New York Times
- Infomoney
