Mercado argentino dispara após vitória de Milei; bolsa salta e peso avança em meio à euforia pós-eleições

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 27 de outubro de 2025

Os ativos argentinos lideraram os ganhos na América Latina nesta segunda-feira (27) após a vitória do governo de Javier Milei nas eleições legislativas de meio de mandato, em um pregão marcado por forte otimismo. Analistas reforçaram a leitura de que o resultado representa um mandato político para a continuidade da agenda de reformas, o que elevou o apetite por risco em ações e fortaleceu a moeda.

O peso argentino oficial subiu 3,97%, a 1.435 por dólar, após chegar a avançar 10% no início do pregão. No segmento informal, o “dólar blue” também se valorizou, com alta de 4,1%, cotado a 1.465 por dólar. Na bolsa, o índice Merval saltou 21,77%, e o ETF Global X MSCI Argentina — referência internacional para exposição ao país — disparou 18,84%, fechando a US$ 88,24.

Para o mercado, o desempenho nas urnas sinaliza um apoio renovado às diretrizes econômicas do governo Milei, mesmo diante do descontentamento com medidas de austeridade. O partido do presidente obteve uma vitória considerada significativa, interpretada como autorização do eleitorado para seguir adiante com as reformas. O resultado veio após semanas de queda nas pesquisas para o governo e foi celebrado por aliados internacionais. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parabenizou Milei em publicação no Truth Social, afirmando que a “vitória esmagadora” comprova a confiança dos argentinos no rumo adotado e qualificou o trabalho do presidente como “maravilhoso”.

Entre as casas de análise, o Bradesco BBI avaliou que a nova composição política e o apoio financeiro externo criam um ambiente mais construtivo para os ativos argentinos. A instituição projeta uma queda progressiva do risco-país para a faixa de 450 a 750 pontos-base (4,5 a 7,5 pontos percentuais) e valorização das ações em um cenário de “governança negociada”. O BBI mantém recomendação overweight (exposição acima da média do mercado) para a Argentina e favorece papéis como Vista Energy, Pampa Energía, TGS, BYMA e Banco Macro. No caso do Banco Macro, o banco enxerga o principal beneficiário da tese de crescimento doméstico, combinando disciplina em inadimplência (NPL), financiamento de baixo custo e elevada exposição à recuperação interna, o que, segundo o BBI, proporciona o melhor perfil de risco-retorno em um setor que tende a se beneficiar de maior estabilidade fiscal e credibilidade monetária.

Após a eleição, o Itaú BBA elevou a recomendação do setor bancário local para outperform (desempenho acima da média). A avaliação é de que o ambiente de crescimento dos bancos volte aos trilhos com a redução de incertezas políticas. Para o BBA, os resultados mais fracos esperados para o segundo semestre de 2025 serão temporários para as margens líquidas de juros (NIMs) e cíclicos para a inadimplência (NPLs). A casa espera aceleração do crédito de 30% ano contra ano e crescimento de lucro acima de 50% em 2026. Com margens mais largas, diluição de despesas administrativas e menor custo de risco, o banco projeta retorno sobre patrimônio (ROE) próximo de 17% em 2026, ante 7% em 2025. Nesse contexto, o BBA reafirmou recomendação outperform para Banco Galicia e elevou Banco Macro e BBVA de market perform (neutra) para outperform. A BYMA, operadora da bolsa local, também permanece como tese atrativa de exposição doméstica.

No mercado de Nova York, ações argentinas registraram fortes ganhos. YPF saltou 23,78%; Banco Galicia avançou 38,70%; BBVA subiu 1,88%; Banco Macro disparou 37,63%; e Pampa Energía teve alta de 23,75%. O Morgan Stanley manteve recomendação outperform para os bancos, destacando a perspectiva de um ciclo plurianual de expansão do crédito, a baixa penetração bancária, a solidez de capital e o retorno do interesse de investidores estrangeiros.

Do lado político, analistas ressaltaram que o desempenho nas urnas pode refletir temores de parte do eleitorado em relação a uma eventual reversão das políticas de austeridade. Embora dolorosas por cortar subsídios amplamente utilizados, as medidas ajudaram a reduzir de forma expressiva a inflação mensal. Em discurso de comemoração em Buenos Aires, Milei afirmou que “os argentinos mostraram que não querem voltar ao modelo de fracasso”. A avaliação foi compartilhada por consultores locais. Gustavo Córdoba, diretor da Zuban Córdoba, disse ter se surpreendido com o resultado e atribuiu o desempenho ao receio de repetição de crises de governos anteriores. Segundo ele, “muitas pessoas estavam dispostas a dar outra chance ao governo”, e o triunfo do presidente “é inquestionável”.

Na composição parlamentar, Córdoba observou que o governo teria garantido cerca de um terço dos assentos na Câmara dos Deputados — patamar que, na leitura dos especialistas, dá maior segurança para sustentar vetos presidenciais e reduzir derrotas legislativas. Nos meses anteriores, a oposição havia revertido alguns vetos de Milei a projetos de gastos que o governo considerava ameaças ao equilíbrio fiscal.

A leitura de fortalecimento político também veio de consultorias internacionais. Marcelo Garcia, diretor para as Américas da Horizon Engage, afirmou que, com o resultado, Milei “poderá defender facilmente seus decretos e vetos no Congresso”, acrescentando que o desempenho eleitoral tende a estimular aliados a apoiar a agenda presidencial. Em seu discurso, o presidente sinalizou disposição para costurar parcerias ao afirmar que “há dezenas de deputados e senadores de outros partidos com os quais podemos chegar a acordos básicos”.

No front externo, investidores destacaram a queda expressiva da inflação mensal, de 12,8% antes da posse de Milei para 2,1% no mês passado, combinada com superávit fiscal e medidas robustas de desregulamentação. Nesse ambiente, os Estados Unidos indicaram um pacote potencial de apoio de US$ 40 bilhões, com um swap cambial de US$ 20 bilhões já assinado e proposta de uma facilidade de investimento em dívida também de US$ 20 bilhões. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou que pretende “dar continuidade aos passos em direção à liberdade econômica que atrairá investimentos do setor privado e criadores de empregos, trazendo prosperidade ao povo argentino”, ao parabenizar Milei em publicação no X.

Em termos eleitorais, na Província de Buenos Aires — tradicional reduto peronista — o La Libertad Avanza (LLA) alcançou 41,5% dos votos, contra 40,8% da coalizão peronista, segundo resultados oficiais, marcando uma inflexão relevante após o desempenho das eleições para o Congresso em setembro. Em âmbito nacional, o LLA deve somar 64 cadeiras na Câmara, ante 37 atuais, de acordo com dados do governo. No pleito de meio de mandato, foram eleitos 127 deputados (metade da Câmara) e 24 senadores (um terço do Senado). Apesar do avanço governista, o peronismo ainda detém a maior minoria em ambas as Casas.

O JPMorgan reforçou a leitura de que o resultado fortalece a posição de Milei no Congresso, ampliando sua autoridade para exercer o veto presidencial — instrumento central de seu primeiro biênio. Segundo o banco, o bloco do LLA deve atingir cerca de 101 deputados; em conjunto com o PRO (aliado principal) e legendas associadas, o grupo somaria perto de 108 cadeiras, ainda de 21 a 22 assentos aquém da maioria. Para avançar a agenda legislativa, o governo precisará costurar apoio com representantes provinciais moderados — cerca de 28 cadeiras —, compondo maiorias pontuais. No Senado, o LLA deve chegar a 20 assentos; com o PRO e aliados, soma 7 adicionais. O governo, portanto, precisará de cerca de 11 votos para alcançar maioria simples, enquanto a representação peronista recuaria para 28 cadeiras, perda de seis.

Na avaliação do JPMorgan, o desafio adiante será negociar com governadores moderados sem abrir mão da disciplina fiscal. A instituição vê uma “janela de oportunidade” rara para reformas transformadoras, desde que o governo mantenha um tom comedido e busque consensos. O banco avalia que a vitória acima do esperado foi impulsionada pela forte recuperação na Província de Buenos Aires e pode mobilizar votos para aprovar mudanças cruciais, especialmente nas áreas tributária e trabalhista. A eventual aprovação do Orçamento de 2026 no Congresso seria interpretada como correção de uma anomalia institucional de longo prazo, reforçando a percepção de uma ordem institucional restaurada.

No plano macro, a expectativa é de intensificação do apoio americano, com recuo acentuado do prêmio de risco político e maior flexibilidade do Banco Central para afrouxar condições monetárias e normalizar os depósitos compulsórios. Após meses de estagnação, a atividade econômica estaria pronta para retomar crescimento, enquanto a inflação seguiria trajetória de queda, segundo as projeções. Olhando à frente, o JPMorgan aponta que os contornos do apoio dos EUA podem catalisar a estabilização e destravar o potencial do país. Passos como a formação de um consenso político mais amplo, o desmonte acelerado de controles de capital persistentes e a convergência para um regime de câmbio flutuante nos próximos meses ajudariam a aproveitar integralmente a assistência americana, destravar investimento direto, reforçar reservas internacionais por vias orgânicas e acelerar a estabilização macroeconômica — fortalecendo as contas externas antes do ciclo eleitoral de 2027.

Visão do Bolso do Investidor

A reação dos ativos sugere um “rali de credibilidade”: o mercado precifica avanço institucional, previsibilidade fiscal e alinhamento externo. A tese pró-bancos combina expansão de crédito, queda do risco e melhora de margens, mas depende de progresso legislativo e manutenção do compromisso com a desinflação. A janela é favorável, porém o case permanece sensível a três eixos: governabilidade no Congresso, tração das reformas micro (tributária e trabalhista) e calibragem da política monetária frente à normalização do câmbio e à retirada de controles. Para o investidor, a assimetria atual é positiva, mas exige monitoramento de execução.

Conclusão

Com o capital político renovado e o apoio internacional em construção, a Argentina entra em uma fase de maior otimismo de mercado. A sustentabilidade desse movimento vai depender da capacidade do governo de transformar o impulso eleitoral em aprovação de reformas e de manter a disciplina fiscal enquanto a economia real retorna ao crescimento. O acompanhamento dos próximos passos no Congresso e do cronograma de medidas será determinante para calibrar expectativas e posições.



Fontes: