O maior assalto a banco da história do Brasil: como criminosos roubaram R$ 164 milhões do Banco Central

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 08 de janeiro de 2026

Há exatos 20 anos, o Brasil foi palco do maior assalto a banco de sua história. Em agosto de 2005, uma operação minuciosamente planejada resultou no roubo de R$ 164 milhões em dinheiro vivo da sede do Banco Central do Brasil em Fortaleza, após a escavação de um túnel subterrâneo que partia de uma casa alugada a dezenas de metros do cofre da instituição.

A casa de número 1071 da Rua 25 de Março, no centro da capital cearense, nunca havia registrado tanto movimento. Em maio daquele ano, o imóvel foi alugado por um homem que afirmou que abriria ali uma empresa de grama sintética, justificativa que explicava o intenso entra e sai de pessoas e materiais de construção. A história, no entanto, era falsa.

Na manhã de 8 de agosto de 2005, funcionários do Banco Central abriram a sala da caixa-forte e encontraram um buraco de aproximadamente 1,1 metro de largura no piso. Rapidamente, a Polícia Federal identificou que o buraco era o ponto final de um túnel de cerca de 80 metros de extensão, escavado a partir da casa da Rua 25 de Março.

O túnel, revestido com lona e sustentado por vigas, tinha cerca de 70 centímetros de largura e chegava a quatro metros de profundidade. Ele passava por baixo de galerias de esgoto e atravessava a movimentada Avenida Dom Manuel. A estrutura contava com iluminação elétrica e sistema de ar-condicionado, o que permitiu que os criminosos trabalhassem por meses sem levantar suspeitas.

Ao todo, foram roubadas cerca de 3,5 toneladas de cédulas de R$ 50, totalizando R$ 164 milhões. O dinheiro havia sido recolhido pelo Banco Central por estar danificado e aguardava análise, com parte destinada à incineração. Para evitar rastreamento, os criminosos deixaram para trás cédulas novas e seriadas, levando apenas notas já em circulação.

A perfuração do piso da caixa-forte, com mais de um metro de espessura e reforço de aço, exigiu o uso de equipamentos pesados, como maquitas com disco de diamante e britadeiras. Indícios apontaram que o grupo contou com informações internas: nenhum alarme foi acionado, uma empilhadeira obstruía a câmera de segurança da sala e os criminosos sabiam exatamente onde perfurar.

O roubo começou na noite de sexta-feira, 5 de agosto, e terminou por volta do meio-dia do sábado seguinte. Para transportar o dinheiro pelo túnel, os assaltantes montaram um sistema de roldanas, usando bacias cheias de cédulas puxadas por cordas. Após a ação, tiveram cerca de 44 horas de vantagem na fuga, já que o crime só foi descoberto na manhã de segunda-feira, quando o expediente do banco foi retomado.

Os vizinhos da casa não desconfiaram de nada. Os criminosos reformaram e pintaram a fachada, divulgaram a suposta empresa de paisagismo e até utilizaram uma van branca com logomarca da falsa empresa “Grama”. A movimentação de grandes quantidades de terra foi considerada normal pelos moradores da região. No local, a polícia encontrou equipamentos usados na escavação, como joelheiras, luvas e roupas apropriadas.

Após o roubo, os envolvidos se dispersaram por diferentes estados. Antes de abandonar o imóvel, espalharam cal pela casa para dificultar a coleta de impressões digitais. Nos anos seguintes, a Polícia Federal indiciou 134 pessoas, das quais mais de 90 foram condenadas em primeira instância. Cerca de R$ 40 milhões do total roubado foram recuperados.

O mentor do crime, Antonio Jussivan dos Santos, conhecido como Alemão, foi condenado em 2009 a 49 anos de prisão. Outro líder apontado pela investigação, Luis Fernando Ribeiro, foi sequestrado e assassinado em outubro de 2005, mesmo após o pagamento de R$ 2 milhões de resgate por sua família. Já Deusimar Neves Queiroz, ex-vigia do Banco Central, recebeu pena de 47 anos de prisão em 2007.

Em 2017, houve uma tentativa de resgate de Jussivan da Penitenciária Francisco Hélio Viana de Araújo, em Pacatuba. O plano envolveu criminosos fortemente armados e terminou em confronto com policiais e agentes penitenciários. Baleado, Jussivan foi hospitalizado e posteriormente transferido para o Presídio Federal de Catanduvas, onde permanece até hoje. Com o passar dos anos, parte dos condenados teve penas reduzidas ou foi absolvida após recursos judiciais.

O crime ganhou notoriedade nacional e internacional e inspirou o filme Assalto ao Banco Central, lançado em 2011 e assistido por cerca de 1,8 milhão de pessoas nos cinemas.

Visão Bolso do Investidor

O assalto ao Banco Central de Fortaleza expôs vulnerabilidades operacionais, falhas de segurança e a sofisticação crescente do crime organizado no Brasil. Para além do impacto financeiro direto, o episódio gerou reflexões sobre governança, controle interno e riscos sistêmicos em instituições públicas. Casos como esse ajudam a entender por que investimentos em segurança, compliance e inteligência institucional são fundamentais para preservar a confiança no sistema financeiro e reduzir riscos que, no limite, afetam toda a economia.


Fontes:

  • O Globo