Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 29/10/2025

Introdução
O economista Marcos Lisboa, ex-presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, afirmou que a volatilidade do crescimento econômico brasileiro é o principal motivo pelo qual o país ficou para trás em relação a outras nações emergentes. A avaliação foi feita durante o painel “O valor da incerteza”, no evento GCB Outliers, em São Paulo, nesta quarta-feira (29).
Segundo Lisboa, o Brasil alterna ciclos de crises severas e períodos curtos de crescimento, sem consolidar estabilidade e produtividade — fatores que, na visão dele, travam o avanço sustentável e perpetuam a chamada “armadilha da renda média”.
Desenvolvimento
Lisboa destacou que, enquanto países pobres conseguiram crescer e economias desenvolvidas mantiveram estabilidade, o Brasil permaneceu estagnado. “O mundo inteiro evoluiu muito e nós ficamos para trás, porque o Brasil oscila entre graves crises e períodos de forte crescimento. Na média, ficamos abaixo de outros emergentes, sem seguir a regra da convergência”, afirmou.
Para o economista, a origem desse problema está na falta de uma base sólida de produtividade, inovação e concorrência. Ele ressaltou que, embora existam setores de excelência — como o agronegócio, o sistema financeiro e parte da tecnologia —, o país sofre com políticas fiscais inconsistentes, excesso de regulação e infraestrutura deficiente.
“O nome do jogo é produtividade, e nossa indústria ficou para trás. Temos bons resultados em tecnologia, no setor bancário e no agronegócio, mas um problema macroeconômico crucial: o ajuste fiscal. Não dá para seguir aumentando a arrecadação para cobrir gastos públicos. Hoje quem está sendo o adulto da casa é o Banco Central, mantendo juros altos”, afirmou Lisboa.
O economista também criticou o sistema tributário complexo, que gera insegurança jurídica e má alocação de capital, dificultando o investimento produtivo. “A incerteza jurídica é um dos principais entraves. O investidor não sabe se as regras vão mudar no meio do jogo — e isso desestimula o capital de longo prazo”, completou.
Para Lisboa, a volatilidade econômica brasileira não apenas freia o crescimento, como também aumenta a desigualdade. “Em um país que alterna bonança e recessão com tanta frequência, o custo recai sobre os mais pobres, porque a instabilidade destrói renda e emprego”, destacou.
Ele defendeu que o ajuste fiscal duradouro e a reforma estrutural da economia são fundamentais para reduzir riscos e permitir um crescimento mais equilibrado. “A análise de riscos é o maior desafio, porque é preciso entender esse ambiente tão complexo, com regras peculiares e incerteza jurídica”, reforçou.
Outro ponto central, segundo Lisboa, é a educação. Ele afirmou que o país precisa de uma agenda consistente para formação de mão de obra e melhoria do ensino básico e técnico, sob pena de perpetuar os gargalos que reduzem a competitividade. “Sem educação e qualificação, não há como sustentar ganhos de produtividade”, disse.
A visão foi compartilhada por Hélio Beltrão, economista e fundador do Instituto Mises Brasil, que também participou do painel. Para ele, o Brasil é um exemplo de como a falta de planejamento e consistência em políticas públicas prejudica o crescimento de longo prazo. “O Brasil é uma aula de como fazer errado”, resumiu Beltrão.
Análise do Bolso do Investidor
A fala de Marcos Lisboa toca em um ponto crucial para investidores: a instabilidade macroeconômica e a falta de previsibilidade fiscal que moldam o ambiente de negócios brasileiro há décadas. Oscilações frequentes no PIB e mudanças abruptas de política econômica tornam o país um mercado de alto retorno potencial, porém elevado risco.
Para quem investe, isso se traduz em um cenário que exige diversificação e planejamento de longo prazo. O Banco Central vem exercendo papel de “âncora da racionalidade”, mantendo os juros em níveis altos para conter inflação e sinalizar estabilidade, mas o custo disso é o encarecimento do crédito e o travamento da atividade produtiva.
Empresas expostas a políticas públicas, infraestrutura e consumo interno sofrem mais com a volatilidade, enquanto setores exportadores, agrícolas e financeiros tendem a se beneficiar em períodos de instabilidade cambial.
Para o investidor estrangeiro, o Brasil segue como mercado promissor, porém condicionado à redução da incerteza jurídica, estabilidade fiscal e avanço das reformas estruturais. Sem esses pilares, o risco de retorno continua alto — e o crescimento, limitado.
Fechamento
A mensagem de Lisboa resume um diagnóstico antigo, mas ainda atual: o Brasil precisa quebrar o ciclo de instabilidade para voltar a convergir com os demais emergentes. Estabilidade fiscal, regras previsíveis e produtividade são as condições básicas para isso. Até lá, o país continuará alternando picos de euforia e quedas bruscas — um comportamento que, segundo o economista, “é a verdadeira armadilha que impede o Brasil de crescer”.
Fontes: InfoMoney; Evento GCB Outliers; Instituto Mises Brasil; Insper.
