Otimismo com energia nuclear retorna, mas desafio será transformar promessa em realidade

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 12 de janeiro de 2026

O entusiasmo em torno da energia nuclear volta a ganhar força nos Estados Unidos e em outros países, impulsionado pelo avanço de uma nova geração de usinas menores, mais modulares e, em tese, mais baratas do que os grandes complexos nucleares tradicionais. Executivos do setor e autoridades públicas afirmam que estaria em curso uma nova era nuclear, capaz de fornecer energia estável e em larga escala para atender à crescente demanda elétrica, especialmente da inteligência artificial.

Um dos símbolos desse movimento está em Oak Ridge, no Tennessee, antiga área ligada ao Projeto Manhattan. Ali, a empresa Kairos Energy avança na construção de um pequeno reator modular, após quase uma década de desenvolvimento tecnológico. A proposta central desses projetos é reduzir o tamanho dos reatores e padronizar seus componentes, permitindo produção em escala industrial e montagem mais rápida, em contraste com as obras gigantescas e complexas que marcaram o setor nas últimas décadas.

A aposta em reatores menores surge após um longo período de frustrações. Nos Estados Unidos, quase todas as usinas nucleares em operação começaram a gerar energia ainda no século passado. Projetos recentes enfrentaram atrasos e estouros de orçamento significativos, como ocorreu na usina de Vogtle, na Geórgia, cujas duas novas unidades custaram cerca de US$ 35 bilhões — quase três vezes a estimativa inicial. Esses históricos alimentaram ceticismo em relação à viabilidade econômica da energia nuclear.

Apesar disso, o governo americano voltou a priorizar o setor. A administração do presidente Donald Trump direcionou cerca de US$ 800 milhões para novas tecnologias de reatores e US$ 1 bilhão em garantias de empréstimos para reativar a usina de Three Mile Island, além de sinalizar novos aportes bilionários. A intenção é recolocar os Estados Unidos na liderança da construção nuclear, hoje dominada por países como a China, que concluiu dezenas de reatores na última década.

A Kairos Energy tenta se diferenciar adotando uma estratégia de desenvolvimento gradual, testando cada etapa do projeto antes de avançar. Seu reator utiliza sal fundido em vez de água para resfriamento e dispensa grandes estruturas de contenção típicas das usinas tradicionais. Outras empresas seguem caminhos semelhantes. A NuScale, que chegou a ser vista como pioneira no segmento, cancelou um projeto em Idaho após custos subirem demais, mas agora busca retomar seus planos em parceria com a Tennessee Valley Authority. Já a GE Vernova Hitachi planeja projetos no Canadá, enquanto a TerraPower, apoiada por Bill Gates, constrói um reator em Wyoming.

Um elemento-chave dessa nova geração é o uso do combustível Triso, desenvolvido pelo Departamento de Energia dos EUA. Ele consiste em partículas de urânio encapsuladas em camadas de carbono e cerâmica, projetadas para conter a radioatividade e reduzir riscos de acidentes. Defensores afirmam que esse sistema, combinado com novos métodos de resfriamento, permitiria dispensar estruturas de contenção tão robustas quanto as das usinas convencionais. Parte da comunidade científica, porém, questiona essa avaliação e alerta para riscos ainda pouco testados em larga escala.

O interesse de grandes empresas de tecnologia reforça o otimismo do setor. A Kairos, por exemplo, assinou contrato para fornecer até 500 megawatts de capacidade ao Google até 2035. Para analistas, a entrada dessas companhias pode ser decisiva, trazendo capital, previsibilidade de demanda e pressão por execução — algo que faltou em tentativas anteriores de uma “renascença nuclear” nos anos 2000.

Ainda assim, especialistas destacam que a promessa de energia nuclear mais barata e rápida depende de fatores críticos: controle de custos, cumprimento de prazos, aprovação regulatória e aceitação pública. Projetos-piloto devem entrar em operação apenas no fim da década, o que significa que os resultados concretos dessa nova onda nuclear ainda estão distantes.

Visão Bolso do Investidor

O retorno do otimismo com a energia nuclear reflete uma necessidade estrutural: garantir oferta de energia estável em um mundo cada vez mais digital e intensivo em eletricidade. No entanto, o histórico do setor mostra que promessas tecnológicas nem sempre se traduzem em viabilidade econômica. Para investidores, a tese nuclear em 2026 ainda é mais estratégica e de longo prazo do que uma aposta de retorno rápido. O sucesso dessa nova geração de reatores dependerá menos do discurso e mais da capacidade de entregar projetos no prazo, dentro do orçamento e com segurança comprovada — um desafio que o setor ainda precisa demonstrar que consegue superar.


Fontes:

  • InfoMoney
  • The New York Times