Ouro e prata disparam com aumento do risco geopolítico após crise na Venezuela, mas efeito tende a ser limitado

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 05 de janeiro de 2026

O ouro e a prata registraram forte valorização nesta segunda-feira, com investidores reavaliando o aumento do risco geopolítico após a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. Apesar do movimento expressivo no curto prazo, analistas avaliam que os impactos tendem a ser limitados quando observados em um horizonte mais longo.

O ouro à vista chegou a subir até 2,5% no início do pregão, ultrapassando o patamar de US$ 4.430 por onça, enquanto a prata avançou quase 5%. O movimento ocorre após o presidente Donald Trump afirmar que os Estados Unidos planejam “governar” a Venezuela após a deposição de Maduro no fim de semana, o que elevou as incertezas sobre o futuro da governança no país sul-americano. Trump também declarou que Washington exige “acesso total” ao território venezuelano, incluindo suas reservas de petróleo.

Segundo Christopher Wong, analista do Oversea-Chinese Banking Corp em Singapura, o episódio reforçou um cenário de incerteza geopolítica. No entanto, ele pondera que os riscos imediatos parecem limitados, uma vez que os acontecimentos na Venezuela indicam uma possível resolução relativamente rápida, em vez de um conflito militar prolongado.

Historicamente, o ouro tende a se valorizar no curto prazo em momentos de aumento das tensões geopolíticas, embora esse efeito costume ser temporário. Uma análise sobre impactos de longo prazo mostra que eventos desse tipo costumam ter influência mais restrita sobre o preço do ouro do que sobre outras commodities, como o petróleo.

De acordo com Bernard Dahdah, analista da Natixis, se não houver desdobramentos adicionais ou um efeito dominó após a captura de Maduro, o episódio tende a perder relevância para a formação de preços do metal. Segundo ele, o impacto estrutural sobre o ouro seria limitado na ausência de novas repercussões geopolíticas.

Além da crise na Venezuela, Trump também voltou a mencionar no fim de semana suas ambições em relação à Groenlândia, território pertencente à Dinamarca e integrante da OTAN. Em declarações a repórteres em Washington, o presidente afirmou que a Groenlândia estaria cercada por navios russos e chineses e que os Estados Unidos precisariam do território por razões de segurança nacional. O primeiro-ministro dinamarquês rejeitou a ideia, afirmando que os EUA não têm direito de anexar qualquer território da Dinamarca.

O movimento de alta do ouro ocorre após o metal registrar seu melhor desempenho anual desde 1979. Ao longo do ano passado, o ouro atingiu sucessivos recordes, impulsionado pelas compras de bancos centrais e pelos fluxos de entrada em fundos negociados em bolsa lastreados no metal. Três cortes consecutivos nas taxas de juros promovidos pelo Federal Reserve também contribuíram para a valorização, já que o ouro não oferece rendimento.

Diversos grandes bancos seguem projetando novas altas para o ouro em 2026, especialmente diante da expectativa de novos cortes de juros e de mudanças na liderança do banco central americano sob o governo Trump. O Goldman Sachs Group afirmou recentemente que seu cenário-base prevê o ouro em US$ 4.900 por onça, com riscos adicionais de valorização.

Outro fator de suporte citado por analistas é o aumento do endividamento federal dos Estados Unidos. Um painel de especialistas econômicos alertou para riscos de longo prazo associados à trajetória da dívida pública. A ex-secretária do Tesouro Janet Yellen afirmou que as condições para a chamada dominância fiscal estão se fortalecendo, situação em que o elevado nível de endividamento pressiona o banco central a manter juros mais baixos para reduzir os custos do serviço da dívida.

A prata apresentou desempenho ainda mais forte do que o ouro no ano passado, superando níveis que até recentemente pareciam improváveis para a maior parte do mercado. Além dos fatores que impulsionaram o ouro, o metal também se beneficiou das preocupações persistentes com a possibilidade de o governo dos Estados Unidos impor tarifas de importação sobre a prata refinada.

O receio de tarifas direcionou grande parte da oferta global de prata para os Estados Unidos, restringindo outros mercados. Na segunda-feira, os contratos futuros de prata na Bolsa de Ouro de Xangai foram negociados com um prêmio superior a US$ 5 por onça em relação aos preços à vista em Londres. Ao mesmo tempo, os preços em Londres seguiram com prêmio frente aos futuros negociados na Comex, em Nova York, uma inversão incomum em relação ao padrão histórico.

Por volta das 12h40 em Londres, o ouro subia 1,7%, para US$ 4.407,02 por onça, enquanto a prata avançava 2,7%, para US$ 74,75. Platina e paládio também registravam ganhos. Já o Índice Bloomberg do Dólar à Vista, que mede a força da moeda americana, avançava 0,2%.

Visão Bolso do Investidor

A reação do ouro e da prata à escalada geopolítica reforça o papel dos metais preciosos como ativos de proteção em momentos de incerteza. Ainda assim, a experiência histórica indica que choques geopolíticos tendem a gerar impactos mais intensos no curto prazo do que efeitos duradouros sobre os preços. Para o investidor, acompanhar o contexto macroeconômico, a política monetária global e os desdobramentos fiscais nos Estados Unidos continua sendo tão relevante quanto os eventos geopolíticos na avaliação do comportamento de ativos de proteção ao longo do tempo.


Fontes:

  • InfoMoney