Por que o Brasil convive com juros elevados: análise aponta choque entre política fiscal e monetária

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 23 de fevereiro de 2026

A manutenção de taxas de juros próximas de 15% ao ano no Brasil é resultado de um conjunto de fatores estruturais da economia, segundo análise publicada sobre o tema. O principal ponto destacado é a atuação simultânea de políticas econômicas em direções opostas: enquanto o Banco Central busca conter a inflação com juros elevados, a política fiscal mantém a expansão de gastos públicos.

De acordo com a avaliação apresentada, o país enfrenta uma situação em que o esforço monetário para desacelerar a economia acaba parcialmente neutralizado pelo aumento das despesas governamentais, o que exige medidas mais intensas da autoridade monetária para atingir o mesmo efeito sobre a inflação.

Crescimento de gastos e impacto na demanda

O arcabouço fiscal em vigor prevê crescimento mínimo das despesas públicas em termos reais. Na prática, os gastos têm avançado acima desse piso nos últimos anos, elevando a demanda da economia em um momento em que a política monetária busca justamente reduzir pressões inflacionárias.

O aumento das despesas estimula consumo e atividade econômica, o que dificulta a desaceleração dos preços. Nesse cenário, a inflação demora mais a recuar e o Banco Central precisa manter juros altos por mais tempo ou até intensificar o aperto monetário para compensar o estímulo fiscal.

A expansão fiscal também contribui para a elevação da dívida pública. A relação entre dívida e Produto Interno Bruto segue em trajetória de crescimento, o que aumenta a preocupação dos investidores quanto à sustentabilidade das contas públicas.

Dívida e prêmio de risco

O crescimento da dívida gera impacto direto no custo de financiamento do governo. Quanto maior a percepção de risco, maior tende a ser a remuneração exigida pelos investidores para comprar títulos públicos.

Esse fenômeno eleva o chamado prêmio de risco, pressionando a estrutura de juros da economia como um todo. Assim, não apenas a taxa básica permanece elevada, como também o custo do crédito para famílias e empresas.

A análise aponta ainda que a credibilidade das regras fiscais influencia esse processo. Medidas que ampliam gastos fora das metas estabelecidas reduzem previsibilidade e aumentam a percepção de risco sobre a política econômica.

Crédito subsidiado reduz eficácia dos juros

Outro fator relevante é a presença significativa de crédito subsidiado e direcionado no país, que corresponde a parcela expressiva do mercado financeiro. Esse tipo de financiamento, geralmente vinculado a programas públicos, não reage da mesma forma às mudanças da taxa básica de juros.

Como parte do crédito não responde ao aperto monetário, a política do Banco Central perde eficiência. Para produzir efeito equivalente sobre a economia, torna-se necessário elevar ainda mais a taxa de juros, já que apenas parte do sistema financeiro reage diretamente às decisões de política monetária. Além disso, programas de crédito subsidiado implicam custos fiscais adicionais, ampliando o déficit público e contribuindo para a pressão sobre a dívida.

Visão Bolso do Investidor

Juros elevados afetam diretamente investimentos, crédito e crescimento econômico. Para investidores, taxas altas tendem a favorecer aplicações de renda fixa e aumentar o custo de capital para empresas, influenciando lucros e avaliações no mercado de ações.

O cenário descrito mostra que a trajetória dos juros não depende apenas da inflação corrente, mas também da combinação entre política fiscal, nível de endividamento público e funcionamento do sistema de crédito. Quando políticas econômicas atuam em sentidos diferentes, o controle da inflação exige esforços maiores da autoridade monetária.

Na prática, isso significa que decisões sobre gastos públicos, dívida e estrutura do crédito impactam diretamente o nível de juros da economia e, consequentemente, o retorno e o risco de diversos tipos de investimento.

Fontes: InfoMoney