Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 30 de outubro de 2025

Mesmo após duas décadas de presença na B3, os ETFs (Exchange Traded Funds) ainda são um produto pouco popular entre investidores brasileiros. Apesar do crescimento recente, o segmento representa cerca de 1% do volume total do mercado de fundos, proporção muito inferior à observada em países como os Estados Unidos, onde esses produtos já somam mais de US$ 9 trilhões em ativos.
Especialistas reunidos no Encontro Anual sobre Índices e ETFs no Brasil 2025, promovido pela S&P Global em São Paulo, apontaram uma combinação de fatores culturais, estruturais e regulatórios que explicam o atraso brasileiro.
Cultura de renda fixa e desconhecimento do produto
Para Leonardo Maranhão, sócio da Invés Finance, a baixa popularidade dos ETFs é, antes de tudo, uma questão cultural.
“Nos Estados Unidos, investir em ETFs é parte da rotina financeira das pessoas. No Brasil, o investidor ainda precisa girar a chave — ele está muito acostumado com CDBs, fundos e títulos públicos”, afirmou.
A superintendente comercial de investimentos do Itaú, Mariana Negri, reforçou a necessidade de educação financeira como principal caminho para o avanço do mercado.
“Ainda causa estranhamento o uso do home broker para um investimento de renda fixa. O cliente acha estranho”, explicou.
Segundo os especialistas, mesmo os ETFs de renda fixa, que começaram a ganhar tração em 2024, enfrentam resistência por parte do público e até de profissionais do mercado.
“É um produto novo, e o processo de adaptação é necessário não só para o investidor, mas também para gestores, bancos e corretoras”, afirmou Guilherme Nascimento, head de canal institucional do XP Banco de Atacado.
Falta de incentivos e a “sopa de letrinhas”
Outro obstáculo para o crescimento desse mercado está no modelo de remuneração dos assessores de investimentos.
De acordo com Francisco Amarante, superintendente da Associação Brasileira dos Assessores de Investimentos (ABAI), a ausência de comissão nas vendas de ETFs desestimula a recomendação do produto aos clientes.
“Um dos pontos centrais é a não remuneração do assessor. Sem incentivo, naturalmente ele prioriza produtos que geram comissão”, afirmou.
Amarante destacou ainda que a complexidade da nomenclatura dos ETFs dificulta a comunicação com o investidor comum:
“É uma sopa de letrinhas que atrapalha o vendedor e confunde o investidor. Quem é sofisticado são vocês [profissionais do mercado]; o investidor não é”, alertou.
Visão do Bolso do Investidor
O atraso na popularização dos ETFs no Brasil reflete uma lacuna histórica na educação financeira e a falta de estímulos estruturais para seu desenvolvimento. Enquanto nos EUA o produto se consolidou como símbolo de diversificação e baixo custo, no Brasil ele ainda disputa espaço com aplicações tradicionais e modelos de distribuição que favorecem produtos com maior remuneração ao intermediário.
A tendência, porém, é de mudança gradual: com a queda dos juros, o avanço dos ETFs de renda fixa e o crescimento do investidor digital, o segmento tende a se expandir nos próximos anos — sobretudo entre quem busca exposição diversificada com praticidade e transparência.
Conclusão
O desafio para o mercado brasileiro é duplo: educar o investidor e ajustar os incentivos da indústria. Sem essas duas frentes, os ETFs continuarão sendo um produto promissor, porém subaproveitado — uma peça sofisticada ainda restrita aos portfólios mais experientes.
Fontes:
- InfoMoney
