Quando o trabalho deixa de definir quem somos e passa a servir a vida

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 20 de janeiro de 2026

Durante muito tempo, a carreira foi sinônimo de identidade. O cargo ocupado, a empresa no currículo e a trajetória profissional projetada funcionavam como marcadores centrais de quem a pessoa era e de como se posicionava no mundo. Palavras como propósito, missão e vocação não apenas descreviam o trabalho, elas organizavam a vida.

Esse modelo não desapareceu por completo, mas deixou de ser hegemônico. Hoje, o trabalho continua relevante, porém já não ocupa sozinho o centro das decisões individuais. Ele passou a dividir espaço com outras dimensões igualmente importantes, como saúde física e mental, relações pessoais, tempo livre e bem-estar.

O que está em curso é uma reorganização profunda das prioridades. A vida profissional deixa de ser o eixo único de sentido e passa a ser uma das peças de um arranjo mais amplo. E, ao contrário do que muitas análises apressadas sugerem, esse movimento não se restringe aos mais jovens.

Ao longo de 24 anos da pesquisa Carreira dos Sonhos, realizada pela Cia de Talentos, observa-se uma mudança consistente na forma como pessoas de diferentes idades e níveis hierárquicos se relacionam com o trabalho. A carreira segue importante, mas já não concentra, sozinha, as promessas de identidade, satisfação e realização pessoal.

Essa mudança atravessa todas as camadas das organizações. Jovens em início de carreira, profissionais de média gestão e executivos em posições de liderança vêm, cada um a seu modo, revisitando prioridades, limites e expectativas.

É importante esclarecer um ponto: esse movimento não significa uma busca idealizada por equilíbrio perfeito entre todas as áreas da vida. A realidade segue marcada por ciclos. Há momentos em que o trabalho exige mais dedicação e outros em que questões familiares ou pessoais demandam maior atenção. Isso não mudou.

O que mudou foi a consciência sobre o custo do trabalho. Não se trata de harmonia plena, mas de entendimento mais claro sobre o impacto físico, emocional e mental das escolhas profissionais.

O esgotamento como ponto de inflexão

Parte relevante dessa transformação nasce de um estado de esgotamento que se tornou quase generalizado no mercado de trabalho. Os dados da Carreira dos Sonhos mostram que, independentemente do nível de senioridade, uma parcela expressiva dos profissionais lida com fragilidades emocionais.

Segundo o levantamento, 62% das pessoas na alta liderança, 33% da média gestão e 42% dos jovens avaliam sua saúde mental como moderada a muito frágil. À primeira vista, o termo “moderada” pode parecer neutro, mas, em um cenário de pressão constante, ele funciona como sinal de alerta.

Outros estudos reforçam essa leitura. Pesquisa do The School of Life aponta que 52% dos líderes e 59% dos liderados recorrem a medicamentos para lidar com estresse e ansiedade. O impacto desse quadro extrapola o indivíduo e atinge diretamente as organizações.

Em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, um aumento de 68% em relação ao ano anterior, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Trata-se de um fenômeno coletivo, com efeitos diretos sobre produtividade, engajamento e sustentabilidade dos negócios.

É nesse contexto que o trabalho perde força como eixo organizador absoluto da vida. Profissionais, mais conscientes do próprio cansaço, ansiedade e desgaste, passam a reavaliar escolhas, expectativas e limites.

Bem-estar como estratégia, não como luxo

O bem-estar deixa de ser um “extra” ou um benefício periférico e passa a ocupar posição central na forma como as pessoas organizam a própria vida. O autocuidado deixa de ser um ideal romântico e passa a ser visto como uma estratégia prática de sobrevivência em um mundo volátil, acelerado e emocionalmente exigente.

Mais do que isso, investir em bem-estar passa a ser interpretado como um sinal de autonomia. Em um contexto social e profissional diferente do passado, ter margem de escolha sobre o uso do próprio tempo e sobre os limites da agenda se torna um novo indicador de poder.

Se antes status estava associado quase exclusivamente a cargo, salário e nível hierárquico, agora ele passa a ser também medido pela capacidade de negociar prioridades com consciência. Dormir melhor, cuidar da saúde, preservar relações e proteger espaços pessoais deixa de ser visto como fuga da carreira e passa a representar domínio sobre a própria vida.

A redefinição do sucesso

Nada disso significa rejeição ao crescimento profissional ou ao sucesso financeiro. As pessoas continuam interessadas em remuneração atrativa, progressão de carreira e reconhecimento. A diferença é que esses elementos já não operam isoladamente.

Entre os jovens respondentes da pesquisa Carreira dos Sonhos, 86% afirmam considerar o bem-estar tão importante quanto o salário. Não por acaso, em 2025, as palavras mais associadas ao conceito de sucesso por esse grupo foram bem-estar, estabilidade, reconhecimento e trabalho com significado.

A ideia do sacrifício irrestrito em nome do trabalho perde espaço. Jovens, média gestão e alta liderança seguem querendo crescer, evoluir e alcançar novos patamares de realização. A mudança está no papel que o trabalho desempenha nessa jornada.

Ele deixa de ser o fim em si mesmo e passa a ser um meio. Um instrumento para construir uma vida que faça sentido, e não o ponto final da realização pessoal.

O impacto para as empresas

Compreender essa transformação não é um exercício abstrato ou filosófico. Para as empresas, trata-se de uma vantagem concreta. Organizações que entendem como as pessoas estão reorganizando suas prioridades conseguem alinhar expectativas com mais realismo, reduzir fricções internas e construir relações de trabalho mais sustentáveis.

Ignorar esse movimento significa aumentar o risco de desengajamento, rotatividade e desgaste emocional. Reconhecê-lo, por outro lado, permite criar ambientes mais conectados ao presente e mais preparados para os desafios de 2026 e além.


Visão Bolso do Investidor

A mudança na relação das pessoas com o trabalho reflete uma transição estrutural, não um capricho geracional. Em um ambiente de pressão constante, o bem-estar passa a ser um ativo estratégico — tanto para indivíduos quanto para empresas. Negócios que compreenderem esse novo arranjo terão vantagem competitiva real na atração, retenção e produtividade de talentos. O trabalho não perdeu valor. Ele apenas deixou de ser o único lugar onde a vida acontece.


Fontes:

  • Infomoney