Resultado fiscal acende alerta e risco para 2026 aumenta, apontam economistas

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 30/10/2025


Introdução

O resultado fiscal do governo federal voltou a acender o alerta entre economistas e investidores. Apesar de o déficit primário acumulado até setembro — R$ 100,4 bilhões — ter vindo dentro das projeções de mercado, as perspectivas para 2026 continuam preocupantes.
Com despesas discricionárias em forte alta, impulsionadas por emendas parlamentares e programas sociais, o governo enfrenta dificuldades para conter gastos e manter a meta de déficit zero no próximo ano. A percepção de risco fiscal, segundo especialistas, segue elevada, especialmente diante da desaceleração da economia e do enfraquecimento da arrecadação.


Desenvolvimento

Em setembro, o resultado primário ficou negativo em R$ 14,5 bilhões, número superior ao déficit de R$ 5,2 bilhões registrado no mesmo mês de 2024, mas dentro das expectativas — cerca de R$ 15 bilhões.
Os economistas destacam que, embora o dado não exija novos bloqueios orçamentários imediatos, o cenário revela pressões crescentes nas contas públicas.

De acordo com Tiago Sbardelotto, economista da XP Investimentos, as receitas líquidas cresceram 0,6% na comparação anual, enquanto as despesas totais subiram 5,7% em termos reais. O avanço mais forte nas despesas foi impulsionado por emendas parlamentares, que cresceram mais de 100% no período, além do aumento com seguro-desemprego, abono salarial e benefícios assistenciais (BPC/LOAS).

“As despesas discricionárias, especialmente as emendas, devem continuar pressionando as contas até o fim do ano”, destacou o economista. Ele observou que, apesar de as despesas obrigatórias estarem mais controladas, o ritmo de execução orçamentária segue acelerado, típico do segundo semestre.

Do lado das receitas, o crescimento foi sustentado pela arrecadação previdenciária, que subiu 11,9%, refletindo o mercado de trabalho ainda aquecido. Também houve expansão do IOF, em razão das alíquotas mais altas no período.

A XP projeta que, nos próximos meses, a arrecadação tributária deve perder força, acompanhando a desaceleração econômica e a redução nos preços e no câmbio. Esse cenário tende a aumentar a dependência de receitas extraordinárias, como os leilões de petróleo previstos para o fim do ano. A casa estima um déficit primário de R$ 60,7 bilhões em 2025 (0,5% do PIB), número que cairia para R$ 10,4 bilhões se consideradas as exceções previstas na meta fiscal.

Já Rafaela Vitoria, economista-chefe do Banco Inter, vê o resultado de setembro como um alerta para a dificuldade de zerar o déficit em 2025. “A receita total ainda cresce, mas as despesas avançam num ritmo mais forte, com destaque para as discricionárias, que subiram 22,9% acima da inflação. Isso mostra que o esforço fiscal segue insuficiente”, afirmou.

Ela revisou a projeção de déficit para R$ 59 bilhões em 2025, ou 0,5% do PIB, ainda dentro do intervalo da meta, mas reforçou que a pressão sobre o orçamento deve se intensificar em 2026, ano eleitoral. “A tendência é de desaceleração da receita e maior demanda por gastos públicos, o que aumenta a percepção de risco e a incerteza sobre o ajuste fiscal.”

A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado reforçou a avaliação. Em relatório recente, apontou que o governo precisará de um esforço adicional de R$ 27 bilhões no último trimestre de 2025 para cumprir a meta de resultado primário zero. A IFI também alertou para a perda de eficácia da MP 1.303, que tratava de compensações tributárias e cuja extinção retirou R$ 10,6 bilhões das receitas deste ano.


Análise do Bolso do Investidor

O resultado fiscal de setembro reforça a preocupação com a sustentabilidade das contas públicas no médio prazo. Embora o governo ainda mantenha a meta dentro dos limites legais, o ritmo de expansão das despesas supera o crescimento da receita, num momento em que a economia dá sinais de desaceleração.

A Selic ainda alta, somada à demanda por mais gastos em 2026, tende a aumentar o custo da dívida pública e o nível de desconfiança dos investidores. Essa percepção de risco pode pressionar o câmbio, elevar os juros futuros e reduzir o apetite por ativos locais, impactando diretamente o desempenho da Bolsa e da renda fixa.

Para o investidor, o cenário reforça a importância de diversificação e gestão ativa, priorizando setores menos dependentes do ciclo fiscal e de juros. Empresas exportadoras e ligadas a commodities podem oferecer proteção parcial, enquanto o mercado de títulos públicos deve continuar volátil até que haja clareza sobre o ajuste orçamentário de 2026.


Fechamento

Com o déficit acumulado em R$ 100,4 bilhões até setembro e o avanço das despesas discricionárias, o governo entra no último trimestre sob pressão redobrada.
O cumprimento da meta fiscal de 2025 ainda é possível, mas o desafio real será recompor receitas, conter gastos e garantir credibilidade diante de um ano eleitoral que promete ampliar as pressões políticas e econômicas.
Enquanto isso, o mercado segue atento — e cauteloso — com o risco fiscal crescente e seus reflexos sobre os juros e a confiança no país.


Fontes: InfoMoney; XP Investimentos; Banco Inter; Instituição Fiscal Independente (IFI); Tesouro Nacional.