Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 21 de fevereiro de 2026

A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de invalidar as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional provocou mudanças relevantes nas expectativas econômicas globais. A medida, além de encerrar a política de sobretaxas sobre importações, pode obrigar o governo americano a devolver cerca de US$ 175 bilhões arrecadados ao longo do período em que as tarifas estiveram em vigor.
O impacto potencial da decisão vai além do comércio internacional. Economistas acompanham de perto os efeitos sobre a inflação nos Estados Unidos, a política monetária do Federal Reserve e a dinâmica do câmbio em países emergentes, como o Brasil.
Inflação nos Estados Unidos pode reagir de forma gradual
A princípio, a retirada das tarifas sugere um ambiente de custos menores para produtos importados, o que poderia resultar em preços mais baixos ao consumidor. No entanto, especialistas apontam que esse movimento não deve ocorrer de forma imediata.
Durante o período em que as tarifas estiveram ativas, diversas empresas optaram por absorver parte dos custos adicionais para preservar volume de vendas e participação de mercado, o que reduziu suas margens de lucro. Com o fim das tarifas, a tendência, segundo analistas, é que muitas companhias priorizem a recomposição dessas margens antes de repassar integralmente a redução de custos aos consumidores.
A avaliação predominante é que o processo dependerá do grau de concorrência em cada setor, da existência de estoques adquiridos sob a antiga estrutura tarifária e de contratos previamente firmados. Cadeias produtivas complexas não se ajustam de maneira instantânea, o que torna a trajetória de preços mais gradual e heterogênea entre diferentes segmentos da economia.
Restituição bilionária pode atuar como estímulo fiscal
Um dos pontos centrais do debate é a possível devolução de aproximadamente US$ 175 bilhões aos importadores. Caso o reembolso se confirme, o montante representaria uma injeção significativa de recursos na economia americana.
Economistas destacam que essa devolução pode funcionar de maneira semelhante a um estímulo fiscal indireto, ao reforçar o caixa das empresas. Esse reforço pode estimular investimentos, ampliar contratações ou fortalecer balanços, contribuindo para a atividade econômica.
Ao mesmo tempo, o cenário adiciona incerteza à trajetória fiscal dos Estados Unidos. A devolução dos valores ocorre em um contexto de preocupações já existentes com o nível de endividamento público. Essa combinação pode influenciar a percepção de risco dos investidores em relação aos títulos do Tesouro americano.
Segundo análises de mercado, a consequência pode ser um movimento na curva de juros, com taxas de curto prazo cedendo diante da possibilidade de alívio inflacionário e juros de longo prazo pressionados por receios fiscais e maior prêmio de risco.
Postura cautelosa do Federal Reserve
Diante desse ambiente de forças opostas, de um lado, potencial desinflação associada à queda de custos de importados; de outro, estímulo fiscal indireto e incertezas jurídicas e fiscais, a expectativa predominante é de que o Federal Reserve adote uma postura prudente.
A autoridade monetária americana tende a evitar mudanças abruptas na condução da política monetária enquanto avalia os desdobramentos práticos da decisão judicial. Em cenários de elevada incerteza, a estratégia mais provável é aguardar a consolidação dos efeitos sobre inflação, crescimento e mercado de trabalho antes de eventuais ajustes na taxa básica de juros.
Reflexos no câmbio e na economia brasileira
Para o Brasil, o principal canal de transmissão da decisão passa pelo câmbio. A reversão da política tarifária considerada agressiva reduz a percepção de risco global e enfraquece o dólar frente a moedas emergentes, entre elas o real.
O movimento já se reflete nos mercados domésticos, com queda na cotação da moeda americana e alívio na curva de juros local. Um dólar mais fraco tende a reduzir o custo de produtos importados e de itens cotados internacionalmente, como combustíveis e insumos industriais.
Esse ambiente favorece o controle da inflação no Brasil, ao diminuir pressões externas sobre preços, e pode contribuir para decisões mais equilibradas por parte do Banco Central na condução da política monetária. Apesar disso, especialistas ressaltam que o efeito positivo do câmbio depende de fatores internos, como a política fiscal brasileira, o nível de juros domésticos e a percepção de risco do país. O enfraquecimento do dólar, por si só, não elimina desafios estruturais da economia nacional.
Visão Bolso do Investidor
A derrubada das tarifas nos Estados Unidos cria um cenário de transição com impactos relevantes para investidores globais. Nos EUA, a disputa entre recomposição de margens empresariais e possível alívio inflacionário pode influenciar expectativas sobre juros e crescimento econômico. A eventual devolução de recursos amplia a incerteza fiscal e pode alterar a dinâmica da curva de juros americana.
Para o investidor brasileiro, o principal reflexo ocorre via câmbio. Um dólar mais fraco tende a aliviar pressões inflacionárias no Brasil e pode melhorar o ambiente para ativos locais, especialmente aqueles sensíveis a fluxo estrangeiro e taxa de juros. No entanto, a sustentabilidade desse movimento dependerá da condução das políticas fiscal e monetária no país.
Em um contexto de mudanças externas relevantes, acompanhar a trajetória do dólar, da inflação e dos juros nos Estados Unidos torna-se fundamental para avaliar riscos e oportunidades no mercado doméstico.
Fontes: InfoMoney
