Tarifas de Trump ampliam vantagem da China e agravam crise agrícola nos EUA

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 28 de outubro de 2025

As políticas comerciais do governo Donald Trump, centradas na imposição de tarifas, estão provocando efeitos colaterais profundos sobre a economia dos Estados Unidos — especialmente no setor agrícola — e abrindo novas oportunidades para a China expandir sua influência sobre o comércio global de grãos.

Um episódio recente simboliza essa crise. Durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, um fotógrafo flagrou o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, lendo uma mensagem de texto que revelava o alcance da deterioração agrícola no país. O texto, aparentemente enviado pela secretária da Agricultura, Brooke Rollins, dizia: “Ontem, socorremos a Argentina. Em troca, os argentinos estão removendo suas tarifas de exportação sobre grãos, reduzindo seus preços e vendendo uma grande quantidade de soja para a China, num momento em que normalmente nós estaríamos vendendo para a China.”

A sequência dos fatos reforçou o alerta: apenas 48 horas após Buenos Aires eliminar seus impostos sobre exportações de grãos, compradores chineses adquiriram cerca de 1,3 milhão de toneladas de soja argentina — exatamente quando os agricultores americanos iniciavam sua colheita sem qualquer pedido do maior parceiro comercial dos Estados Unidos. O aumento repentino das exportações da Argentina derrubou os preços da soja no mercado internacional, consolidando a vantagem chinesa em detrimento dos produtores norte-americanos.

Mais do que uma disputa comercial, o episódio expõe um erro conceitual nas políticas de Washington: a crença de que tarifas podem fortalecer cadeias de suprimentos num mundo globalizado. Na prática, essas medidas ignoram a natureza interligada da economia contemporânea. A soja, por exemplo, não é um produto final de consumo, mas um insumo intermediário que sustenta toda uma cadeia agroindustrial — da produção de ração animal à oferta de óleo e proteína vegetal. Interromper um elo dessa cadeia provoca uma reorganização estrutural que raramente se reverte.

A China aprendeu essa lição duas décadas atrás. Em 2004, especuladores internacionais manipularam os preços da soja — elevando-os de US$ 540 para mais de US$ 750 por tonelada antes de derrubá-los para US$ 500 — e forçaram a falência de cerca de 3 mil processadores chineses. Com isso, empresas estrangeiras passaram a controlar entre 70% e 85% da capacidade de esmagamento da soja na China, comprometendo a segurança alimentar do país.

Em resposta, Pequim criou reservas estratégicas por meio da estatal Sinograin, fortaleceu suas próprias usinas de processamento e iniciou uma política agressiva de investimento na infraestrutura agrícola da América do Sul. Quando as tarifas de Trump foram impostas em 2018, a China já possuía a base logística necessária para substituir os Estados Unidos por fornecedores sul-americanos.

Portos, ferrovias e corredores logísticos financiados com capital chinês na Argentina e no Brasil permitiram uma rápida adaptação. O que levaria duas décadas aconteceu em sete anos: entre 2011 e 2018, cerca de 60% das exportações americanas de soja tinham como destino a China; em 2024, o Brasil respondeu por 71% das importações chinesas do produto — ante apenas 2% nos anos 1990.

A guerra comercial consolidou essa nova configuração. Os produtores da América do Sul expandiram a produção, e mesmo após a suspensão de algumas tarifas, a cadeia de abastecimento não voltou ao formato original. As processadoras chinesas firmaram contratos de longo prazo com fornecedores do Cone Sul, e as rotas Brasil-China se tornaram referência global para precificação da soja.

A lógica é simples: compradores concentrados, como a China, conseguem diversificar fornecedores com mais facilidade do que produtores dispersos, como os agricultores americanos, podem encontrar novos mercados. Com 60% do comércio global de soja concentrado em seu território, a China tem poder de escolha — enquanto os EUA, dependentes de um único cliente, perderam a capacidade de reposicionar sua produção.

A incoerência da estratégia americana fica evidente em números: Washington concedeu US$ 20 bilhões à Argentina para evitar sua aproximação com Pequim, e Buenos Aires respondeu eliminando impostos de exportação e vendendo soja à China. Paralelamente, os agricultores dos EUA receberam US$ 28 bilhões em subsídios entre 2018 e 2019, mas continuam perdendo espaço no mercado global.

“Queremos mercados, não resgates financeiros”, declarou um porta-voz da Associação de Soja de Illinois. Mesmo assim, o país segue financiando tanto seus produtores quanto seus concorrentes. Essa contradição reflete uma falha estrutural na forma como os EUA tratam os fluxos globais de suprimentos. Tarifas podem proteger setores industriais de bens finais, mas são desastrosas para insumos intermediários, que têm substituição fácil e cadeia flexível.

As consequências não se limitam à agricultura. A política comercial americana repete erros vistos no Reino Unido após o Brexit: a crença de que soberania comercial pode se sobrepor à interdependência econômica. Tanto Londres quanto Washington subestimaram o custo de ajustar cadeias de abastecimento complexas, tratando relações multilaterais como se fossem bilaterais.

Pesquisas sobre o pós-Brexit mostram que as rupturas se intensificaram com o tempo — as quedas no comércio em 2023 foram mais severas que nos primeiros anos após a separação da União Europeia. Isso demonstra que, uma vez alteradas, as cadeias globais raramente voltam ao ponto anterior. O Reino Unido permanece dependente da Europa para bens intermediários, assim como os EUA dependem da China para produtos agrícolas processados.

A lição da soja é clara: no comércio global, o controle sobre os elos da cadeia de valor é mais decisivo do que o domínio sobre as matérias-primas. A China aprendeu isso em 2004 e estruturou políticas para nunca mais repetir o erro. Já os Estados Unidos, ao insistirem em políticas tarifárias que desconsideram essa dinâmica, estão perdendo acesso a seus principais mercados.

Quando Scott Bessent leu a mensagem sobre a venda argentina à China, o cenário já estava definido. O governo americano, ao tentar proteger seus agricultores, acabou redigindo o obituário de uma parceria comercial construída ao longo de décadas — uma relação que dificilmente poderá ser reconstruída enquanto a política comercial dos EUA continuar presa a uma visão ultrapassada do comércio global.

Visão do Bolso do Investidor

A nova configuração do mercado agrícola internacional reforça o protagonismo da América do Sul — especialmente Brasil e Argentina — na exportação de grãos e proteínas. Para o investidor, a tendência é de valorização contínua das commodities agrícolas sul-americanas e fortalecimento das empresas de infraestrutura logística que operam na rota Brasil-China. A perda de competitividade dos EUA deve ampliar o fluxo de capitais para o agronegócio regional e para ações vinculadas ao setor de transporte e exportação de alimentos.

Conclusão

O efeito das tarifas americanas vai muito além das fronteiras políticas. Ao tentar proteger sua produção interna, os EUA acabaram acelerando a ascensão de um novo eixo comercial no agronegócio global, no qual a América do Sul assume papel central. O desafio, agora, será compreender que as cadeias de suprimento do século XXI se movem por eficiência — não por decreto.

Fontes:

InfoMoney