The Economist alerta para entraves estruturais que sufocam a economia brasileira e elevam riscos fiscais

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 12 de fevereiro de 2026

O desempenho das próximas eleições gerais no Brasil, previstas para outubro, deverá ser influenciado principalmente por dois fatores: a criminalidade e a situação financeira dos eleitores. Essa é a avaliação apresentada em artigo publicado nesta semana pela revista britânica The Economist, que também destacou os principais desafios estruturais enfrentados pela economia brasileira.

Segundo a publicação, entre os maiores obstáculos estão a delicada situação fiscal, o avanço de interesses de grupos organizados, o peso de benefícios concedidos ao funcionalismo público e a complexidade do sistema tributário nacional.

A revista observa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aposta no desempenho econômico como trunfo para buscar a reeleição. O crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) em torno de 3% nos últimos três anos superou as expectativas. A inflação anual está em 4,3%, patamar considerado baixo dentro do histórico brasileiro, e o desemprego encontra-se em nível recorde de baixa.

Apesar disso, a oposição apresenta uma leitura diferente do cenário. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirma que o país atravessa uma “crise fiscal”. Especialistas do mercado financeiro também alertam para o risco de recessão. Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, declarou à revista que o Brasil não está em situação crítica imediata, mas caminha nessa direção.

Crise fiscal e trajetória da dívida

A publicação questiona a sustentabilidade das contas públicas brasileiras. Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida bruta do país deverá alcançar 99% do PIB em 2030, frente a 62% registrados em 2010.

Atualmente, a dívida brasileira está cerca de 30 pontos percentuais acima da mediana observada entre mercados emergentes e países latino-americanos comparáveis. O déficit nominal atinge 8,1% do PIB, composto majoritariamente por despesas com juros.

A revista relembra que, ao assumir o governo em janeiro de 2023, Lula herdou um superávit primário equivalente a 1,4% do PIB e um déficit total próximo de 4,5%. Em dezembro de 2025, porém, o país já registrava déficit primário de 0,4% do PIB.

Essa deterioração, segundo a análise, reduziu a confiança do mercado na capacidade do governo de estabilizar a dívida pública. Como consequência, o Banco Central mantém juros reais próximos de 10%, um dos patamares mais elevados do mundo, o que pressiona o investimento privado e limita o crescimento econômico. O Brasil investe cerca de 17% do PIB, pouco mais da metade da taxa observada na Índia.

A revista afirma que a capacidade de o país atingir seu potencial depende da disposição do Congresso eleito em enfrentar interesses consolidados, muitos deles previstos na própria Constituição.

Gastos públicos e Previdência

De acordo com a The Economist, programas assistenciais costumam ser apontados como causa do desequilíbrio fiscal, mas esse diagnóstico seria equivocado. Esses programas somam US$ 83 bilhões por ano, equivalentes a 3,7% do PIB. O montante inclui o Bolsa Família, que concede benefícios a famílias de baixa renda mediante compromissos como vacinação infantil e frequência escolar, além de auxílios por invalidez e desemprego.

Os gastos com saúde e educação pública, de aproximadamente 4% do PIB cada, estão em linha com países comparáveis. Armínio Fraga afirmou à revista que cortes nessas áreas não estariam entre suas prioridades.

Segundo a publicação, os principais fatores de pressão sobre as contas públicas são a Previdência e o sistema tributário. A Previdência consome cerca de 10% do PIB e, sem novas reformas até 2050, os gastos com aposentadorias poderão superar, proporcionalmente ao PIB, os de países mais ricos e com população mais envelhecida.

Embora o Brasil tenha perfil demográfico semelhante ao de Chile e México, seu gasto previdenciário já se aproxima do nível do Japão. Mesmo após a reforma de 2019, que estabeleceu idade mínima para aposentadoria, a população brasileira envelhece rapidamente. Sem novas mudanças, o déficit previdenciário, diferença entre contribuições e pagamentos, pode saltar dos atuais 2% do PIB para mais de 16% até 2060.

Funcionalismo público e Judiciário

A revista também aponta o peso do funcionalismo público. O Brasil possui cerca de 13 milhões de servidores públicos e 40 milhões de empregados formais no setor privado, mas os déficits previdenciários dos dois regimes são praticamente equivalentes.

Segundo o artigo, benefícios generosos acabam atraindo trabalhadores mais qualificados para o setor público. Também são mencionados os gastos com o Judiciário e as Forças Armadas. O sistema judicial brasileiro consome cerca de 1,3% do PIB, sendo apontado como o segundo mais caro do mundo, em grande parte devido a benefícios previdenciários elevados. Militares, por sua vez, frequentemente se aposentam antes dos 55 anos com pensão equivalente ao salário integral.

Dario Durigan, do Ministério da Fazenda, afirmou à revista que reformas estruturais amplas são necessárias, destacando a necessidade de rever privilégios em regimes específicos enquanto se busca preservar os benefícios dos mais vulneráveis.

A publicação observa ainda que a regra de vinculação do salário mínimo às aposentadorias amplia o impacto fiscal de reajustes. Além disso, decisões judiciais determinam pagamentos adicionais de pensões e benefícios, o que, segundo o texto, representa custo anual equivalente a 2,5% do PIB.

Sistema tributário e grupos de interesse

Outro entrave destacado é o sistema tributário brasileiro, descrito como extremamente complexo. A carga tributária equivale a cerca de 34% do PIB, acima da maioria dos países comparáveis.

Estudo citado da Deloitte aponta que empresas com faturamento anual de até US$ 95 milhões gastaram, em média, 16.200 horas por ano para cumprir obrigações tributárias. Companhias com vendas superiores a US$ 1,5 bilhão chegaram a dedicar 63.000 horas anuais a essa tarefa. O custo econômico dessa complexidade pode equivaler a até meio ponto percentual do PIB por ano.

A revista também ressalta o papel de grupos de interesse que obtêm regimes especiais e isenções fiscais. A alíquota nominal do imposto corporativo é de 34%, mas a alíquota efetiva varia entre 16% e 18%, segundo Sérgio Wulff Gobetti, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Esse nível está entre os mais baixos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O país destina cerca de 7% do PIB a isenções fiscais, ante 2% em 2003, conforme dados da Fundação Getulio Vargas (FGV). Dos 128 regimes de isenção existentes, 95 permanecem previstos até 2073. Segundo a revista, esse modelo contribui para um sistema regressivo, no qual a arrecadação se concentra em impostos sobre consumo, afetando proporcionalmente mais as camadas de menor renda.

Visão Bolso do Investidor

A análise da The Economist coloca em evidência temas centrais para a avaliação de risco país, sustentabilidade fiscal e ambiente de negócios. A trajetória da dívida pública, a capacidade de promover reformas estruturais e o nível de confiança do mercado influenciam diretamente juros, investimento e crescimento de longo prazo. Para investidores, o debate sobre Previdência, sistema tributário e governança fiscal é determinante para entender o custo de capital no país, a competitividade das empresas e o potencial de expansão econômica nos próximos anos.


Fontes:

  • InfoMoney