Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 19 de janeiro de 2026

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chega a Davos nesta semana em meio a uma escalada inédita de tensões com aliados históricos da Europa. Às vésperas de sua participação no Fórum Econômico Mundial, na Suíça, Trump voltou a sacudir os alicerces da relação transatlântica ao ameaçar impor novas tarifas comerciais vinculadas à Groenlândia, reabrindo frentes de atrito tanto com a União Europeia quanto com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
A visita ocorre após uma série de declarações e movimentos que surpreenderam diplomatas europeus. Trump sinalizou que pretende usar tarifas como instrumento de pressão política para avançar sua ambição de assumir o controle da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, atropelando entendimentos comerciais firmados anteriormente com a União Europeia e o Reino Unido.
O presidente americano há anos manifesta desconforto com a Europa, frequentemente retratando o bloco como um conjunto de países que se beneficiam da proteção militar dos Estados Unidos enquanto impõem regulações e tributos a empresas de tecnologia americanas. Embora líderes europeus tenham adotado postura mais cautelosa e tolerante ao longo do segundo mandato de Trump, a ameaça recente reacendeu temores de retaliação comercial e fragmentação política.
A declaração mais contundente veio no fim de semana, em uma publicação na rede Truth Social feita a partir do clube de golfe de Trump em West Palm Beach. A mensagem levou autoridades europeias a convocarem uma cúpula de emergência, enquanto assessores do governo americano reforçaram publicamente a linha dura adotada pelo presidente.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que acredita que os europeus acabarão aceitando a ideia de um maior controle americano sobre a Groenlândia. Em entrevista ao programa Meet the Press, da NBC, Bessent argumentou que a posse direta do território ampliaria o poder de dissuasão dos EUA. “Somos o país mais forte do mundo. Os europeus projetam fraqueza; os Estados Unidos projetam força”, declarou.
Diferentemente de visitas tradicionais a Bruxelas ou Copenhague, Trump optou por usar o palco de Davos — símbolo da ordem econômica global — para reforçar sua estratégia de afastamento de mecanismos multilaterais e alianças históricas. Em paralelo, o presidente tem direcionado atenção a fóruns alternativos, como o chamado Conselho da Paz, iniciativa ainda em formação que vem despertando apreensão entre outros líderes globais.
Esta será a terceira participação de Trump no Fórum Econômico Mundial como presidente. Em 2025, ele discursou virtualmente poucos dias após o início de seu segundo mandato e aproveitou a ocasião para reiterar críticas à União Europeia. Naquele momento, afirmou que o bloco tratava os Estados Unidos de forma “muito injusta”, citando impostos, tarifas e regulações, ainda que tenha declarado “amor” à Europa.
Desde então, a prometida “revolução do bom senso”, mencionada por Trump naquele discurso, se traduziu em uma política externa marcada por tarifas amplas, incertezas sobre o apoio americano à Ucrânia e questionamentos constantes sobre o papel dos EUA em alianças tradicionais.
Agora, a retórica mais agressiva em relação à Groenlândia ameaça romper a trégua comercial estabelecida após acordos firmados no ano passado com a União Europeia e o Reino Unido. Trump indicou no sábado que poderia impor tarifas de 10% ao Reino Unido e a sete países europeus já no próximo mês, medida que elevaria as alíquotas previamente negociadas.
O presidente francês, Emmanuel Macron, reagiu sinalizando a possibilidade de acionar o mais alto nível de contramedidas comerciais da União Europeia. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, afirmou em conversa telefônica com Trump que a ameaça tarifária era “errada”.
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, considerada ideologicamente próxima de Trump, disse ter conversado com o presidente americano para tentar reduzir a escalada. Segundo ela, Trump demonstrou disposição para ouvir, mas considera que a posição europeia não foi comunicada com clareza.
Até mesmo aliados internos pediram moderação. O ex-vice-presidente Mike Pence afirmou que a postura atual ameaça fraturar a relação dos EUA não apenas com a Dinamarca, mas com toda a Otan, embora tenha reiterado apoio ao objetivo de adquirir a Groenlândia.
Apesar da retórica contundente, ainda não está claro se as tarifas serão efetivamente implementadas. A Casa Branca evitou esclarecer qual base legal sustentaria as medidas, e analistas apontam que a autoridade usada pode enfrentar contestação na Suprema Corte. O diretor do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett, afirmou que não foi informado sobre os fundamentos jurídicos, descrevendo as ameaças como parte de uma estratégia de negociação.
Hassett ressaltou que Trump, autor de A Arte da Negociação, costuma usar a pressão como ferramenta para fechar acordos e defendeu cautela, diálogo e a busca por soluções que atendam a todas as partes envolvidas.
Visão Bolso do Investidor
A chegada de Trump a Davos sob esse clima de confronto reforça a percepção de que o cenário geopolítico em 2026 seguirá marcado por volatilidade, imprevisibilidade e uso explícito de instrumentos econômicos como armas políticas. Para investidores, o episódio é um lembrete de que cadeias globais de comércio, acordos multilaterais e fluxos de capitais podem ser rapidamente impactados por decisões unilaterais. Em ambientes assim, diversificação geográfica, atenção ao risco político e exposição equilibrada entre mercados desenvolvidos e emergentes tornam-se ainda mais relevantes.
Fontes:
- InfoMoney
- Bloomberg
