Um ano de bets reguladas: crescimento econômico, empregos e desafios no combate à ilegalidade

Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 02 de janeiro de 2026

A regulamentação do mercado de apostas esportivas no Brasil completa um ano em janeiro de 2026 com um balanço que vai muito além da polêmica inicial. Em doze meses, o setor deixou de operar em uma zona cinzenta para se consolidar como uma indústria formal, regulada e de grande impacto econômico, com reflexos diretos na geração de empregos, na arrecadação de impostos e na profissionalização de atividades antes inexistentes no país.

Desde a entrada em vigor das regras, em janeiro de 2025, as casas de apostas passaram a operar sob exigências rígidas de governança, tecnologia e compliance. Esse novo ambiente regulatório impulsionou uma expansão significativa das estruturas internas das empresas, que passaram a contratar profissionais não apenas para áreas tradicionais, como marketing, tecnologia, atendimento e trading esportivo, mas também para departamentos específicos exigidos pela legislação, como prevenção à lavagem de dinheiro, combate a fraudes e financiamento ao terrorismo.

Um estudo elaborado pela LCA Consultores e pela Cruz Consulting, em parceria com a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, aponta que, somente em 2025, o setor foi responsável pela criação de mais de 10 mil empregos diretos e cerca de 5,5 mil empregos indiretos. Além disso, 67 novas ocupações passaram a ser formalmente reconhecidas no mercado de trabalho brasileiro, refletindo a consolidação de uma cadeia produtiva inédita no país.

Esse crescimento veio acompanhado de uma transformação no perfil dos profissionais do setor. Na Ana Gaming, controladora das marcas 7k Cassino e Vera, o CEO Marco Túlio afirma que a regulamentação acelerou o amadurecimento da indústria e ampliou a demanda por talentos especializados. Segundo ele, ainda existe uma lacuna relevante na formação de profissionais voltados especificamente ao ecossistema de apostas, sobretudo em áreas como trading esportivo, compliance regulatório e operação de plataformas digitais.

“Muitos dos profissionais estão sendo adaptados de setores próximos, como fintechs, streaming e agências digitais. Esse movimento reflete um processo natural de amadurecimento: o mercado deixa de ser um nicho e passa a se posicionar como um grande player do entretenimento”, afirma.

Levantamento da consultoria Michael Page reforça esse diagnóstico. Apenas no segundo semestre de 2024, período que antecedeu a entrada em vigor da regulamentação, houve um aumento de 37% na procura por contratações no segmento. Para Mila Rabelo, diretora de compliance da Paag, essa busca por executivos vindos de outros setores está diretamente ligada à necessidade de estruturas mais robustas. “As empresas passaram a exigir lideranças com experiência em ambientes regulatórios complexos, algo que se tornou essencial com as novas regras”, avalia.

A regulamentação também funcionou como um ímã para empresas estrangeiras. A InPlaySoft, companhia internacional especializada em tecnologia para apostas esportivas, instalou operação no Brasil com investimento estimado em mais de R$ 90 milhões. Para Gustavo Salvador, head de desenvolvimento de negócios da empresa, o movimento de entrada de empresas tradicionais no setor tem efeito direto na qualificação do mercado. “À medida que essas empresas transformam o setor e trazem uma nova visão de negócio, o mesmo acontece com os profissionais”, afirma.

Outro dado relevante é o nível de remuneração. De acordo com o estudo da LCA, mais de 53% dos vínculos empregatícios no setor são ocupados por trabalhadores com ensino superior, e 63,8% recebem salários superiores a quatro salários mínimos. Apenas os empregos diretos geram uma massa salarial anual de R$ 460 milhões, além de R$ 87 milhões em encargos sociais.

O impacto econômico vai além da folha de pagamento. A análise aponta um efeito multiplicador relevante: para cada R$ 1,00 investido em capital próprio pelas empresas do setor, até R$ 3,74 podem ser gerados em demanda adicional em outros segmentos da economia. Até o momento, foram R$ 7,5 bilhões investidos em capital social, com potencial de gerar até R$ 28 bilhões em demanda ao longo do tempo.

Casos concretos ajudam a ilustrar essa expansão. Em maio de 2025, a Reals inaugurou uma sede de 6 mil metros quadrados em Alphaville, com capacidade para até 1.500 colaboradores. Segundo o CEO Rafael Borges, a nova estrutura simboliza o crescimento acelerado da empresa e a consolidação de uma operação de grande porte no país.

No campo fiscal, os números também chamam atenção. Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação indicam que, entre janeiro e setembro de 2025, o setor de apostas arrecadou mais de R$ 3 bilhões em tributos federais. No mesmo período, o Gross Gaming Revenue (GGR) superou R$ 30 bilhões. Parte desses recursos foi direcionada a áreas como Esporte, Turismo, Segurança Pública, Seguridade Social e Educação.

O governo estima ainda que o Brasil conte atualmente com cerca de 25 milhões de apostadores ativos, o equivalente a aproximadamente 12% da população. Esse desempenho colocou o país rapidamente entre os maiores mercados do mundo. Um estudo da Regulus Partners, divulgado pela BBC News, projeta que o Brasil encerre 2025 como o quinto maior mercado global de apostas, com faturamento estimado em US$ 4,139 bilhões, cerca de R$ 22 bilhões.

Apesar do avanço, o principal desafio permanece sendo o combate ao mercado ilegal. Estimativas apontam perdas anuais de R$ 10,8 bilhões em razão de apostas realizadas em plataformas não autorizadas. Uma pesquisa indica que 61% dos entrevistados admitiram ter apostado em sites ilegais em 2025, sendo que muitos relatam dificuldade para identificar quais plataformas são regularizadas.

Para Pietro Cardia Lorenzoni, diretor jurídico da ANJL, o enfrentamento desse problema será decisivo. “Para 2026, é imprescindível que as autoridades públicas estejam efetivamente engajadas no combate aos operadores ilegais, que prejudicam o consumidor, o setor e a arrecadação”, afirma.

O consenso entre os agentes do mercado é que a regulamentação abriu um caminho sem volta. A expectativa para 2026 é de um crescimento adicional próximo de 20%, com mais investimentos, ampliação do quadro de empregos e um ambiente cada vez mais estruturado e transparente.


Visão do Bolso do Investidor

A regulamentação das casas de apostas mostra como transformar um mercado informal em uma indústria relevante do ponto de vista econômico e fiscal. Os dados evidenciam geração de empregos qualificados, aumento de arrecadação e atração de capital estrangeiro, mas também expõem riscos claros quando a fiscalização não acompanha o crescimento do setor.

Para o investidor, o caso das bets reforça duas lições importantes: setores recém-regulados tendem a passar por ciclos acelerados de expansão, mas exigem atenção redobrada à governança, à sustentabilidade do modelo de negócio e à atuação do poder público. O combate à ilegalidade será determinante para que o crescimento observado em 2025 se traduza em um mercado sólido e previsível nos próximos anos.


Fontes:

  • InfoMoney
  • Bloomberg