Escrito por: Equipe Bolso do Investidor
Data da publicação: 17 de dezembro de 2025

Três anos após o lançamento do ChatGPT pela OpenAI, que deu início a uma corrida global em torno da inteligência artificial, o mercado financeiro começa a demonstrar sinais claros de ceticismo em relação à sustentabilidade desse movimento. Embora os investimentos em IA continuem elevados, cresce em Wall Street a discussão sobre a possibilidade de formação de uma bolha e sobre quais fatores poderiam desencadear uma correção relevante nos preços dos ativos ligados ao setor.
Nos últimos meses, alguns sinais acenderam alertas entre investidores. As ações da Nvidia passaram por uma correção significativa, enquanto a Oracle sofreu forte queda após divulgar um aumento expressivo nos gastos com infraestrutura de IA, acompanhado de crescimento abaixo do esperado em sua divisão de computação em nuvem. Ao mesmo tempo, empresas diretamente ligadas ao ecossistema da OpenAI também passaram a ser avaliadas com maior cautela.
Para parte do mercado, o debate agora não é mais se a inteligência artificial é uma revolução tecnológica, isso já é consenso, mas se os retornos financeiros conseguirão justificar o volume gigantesco de capital que vem sendo alocado no setor. Como resumiu Jim Morrow, CEO da Callodine Capital Management, o mercado chegou ao ponto em que a narrativa precisa ser sustentada por resultados concretos. Segundo ele, o foco agora está em saber se o retorno sobre o investimento será suficiente para validar a euforia inicial.
O desempenho recente do mercado acionário americano reforça essa preocupação. Cerca de US$ 30 trilhões foram adicionados ao valor de mercado do S&P 500 nos últimos três anos, impulsionados principalmente pelas gigantes de tecnologia e por empresas diretamente beneficiadas pela expansão da IA, como fabricantes de chips e fornecedores de energia elétrica. Caso esse grupo perca força, o impacto tende a se espalhar rapidamente pelos índices.
Analistas ressaltam que, nesse tipo de ativo, o problema não surge quando o crescimento desacelera, mas quando deixa de acelerar. Esse é o ponto em que as expectativas embutidas nos preços começam a ser questionadas.
Apesar disso, o otimismo ainda encontra respaldo em alguns fatores. As grandes empresas de tecnologia possuem balanços robustos, grande capacidade de geração de caixa e reiteram o compromisso de continuar investindo pesado em IA nos próximos anos. Além disso, o desenvolvimento de novos modelos e aplicações segue avançando, o que mantém viva a tese de longo prazo. Ainda assim, o volume de capital necessário para sustentar essa expansão começa a gerar desconforto.
A OpenAI, por exemplo, planeja investir cerca de US$ 1,4 trilhão nos próximos anos. Embora tenha conseguido captar recursos com facilidade até agora, a empresa ainda opera com custos muito superiores às receitas e deve continuar queimando caixa até o final da década. O risco surge caso o apetite dos investidores por financiar esse crescimento diminua. Nesse cenário, o impacto se espalharia rapidamente por empresas que orbitam o ecossistema da IA, como prestadores de serviços de computação.
O financiamento via dívida também se tornou um ponto sensível. A Oracle, que acumulou grandes contratos ligados à infraestrutura de IA, vem levantando bilhões no mercado de títulos para financiar a construção de data centers. O aumento do endividamento elevou a percepção de risco de crédito da companhia, atingindo níveis que não eram vistos desde a crise financeira de 2009. Isso reforça a leitura de que o mercado de crédito, historicamente mais conservador, começa a precificar riscos que o mercado acionário ainda tolera.
Outro foco de atenção está nos gastos das Big Techs. Alphabet, Microsoft, Amazon e Meta devem investir mais de US$ 400 bilhões em despesas de capital nos próximos 12 meses, majoritariamente em data centers. Embora essas empresas já colham receitas associadas à IA, o crescimento ainda está distante de compensar totalmente os custos crescentes. O avanço acelerado da depreciação desses ativos começa a pressionar fluxos de caixa, recompras de ações e dividendos.
Projeções indicam que o crescimento dos lucros das chamadas “Magníficas Sete” deve desacelerar em 2026, ao mesmo tempo em que os custos fixos aumentam de forma estrutural. Isso representa uma mudança relevante no modelo de negócios das Big Techs, que historicamente se destacaram por alto crescimento com baixos custos operacionais.
Ainda assim, parte do mercado argumenta que comparar o momento atual com a bolha das empresas pontocom pode ser exagero. Os múltiplos de valuation, apesar de elevados em alguns casos específicos, estão muito abaixo dos níveis observados no início dos anos 2000. Enquanto o Nasdaq chegou a negociar acima de 80 vezes os lucros naquela época, hoje gira em torno de 26 vezes, segundo dados da Bloomberg.
Empresas como Palantir e Snowflake, com múltiplos extremamente elevados, são apontadas como bolsões de exuberância. Já gigantes como Nvidia, Alphabet e Microsoft apresentam avaliações mais moderadas, considerando sua escala, lucratividade e posição estratégica.
Esse cenário deixa os investidores diante de um dilema claro: os riscos estão mais visíveis, mas a precificação ainda não sugere pânico generalizado. A grande questão passa a ser se o mercado seguirá inflando expectativas ou se entrará em um processo gradual de rotação e reprecificação dos ativos ligados à IA.
Visão Bolso do Investidor
O debate em torno de uma possível bolha da inteligência artificial não é, necessariamente, um alerta para “fugir” do setor, mas um sinal claro de que o mercado entrou em uma fase mais madura do ciclo. Narrativas poderosas tendem a atrair capital rapidamente, mas, com o tempo, os preços passam a exigir comprovação de resultados, geração de caixa e retorno sobre o investimento.
Para o investidor, o risco não está na tecnologia em si, mas na expectativa excessiva embutida em alguns ativos. A história mostra que grandes revoluções tecnológicas raramente desaparecem, mas os retornos se concentram em poucas empresas capazes de transformar inovação em lucro consistente. O desafio está em separar crescimento estrutural de euforia temporária.
Em ciclos como este, disciplina, diversificação e análise criteriosa tornam-se ainda mais importantes. A inteligência artificial deve continuar moldando a economia global, mas o caminho entre promessa e resultado costuma ser mais volátil do que o mercado imagina.
Fontes:
- Infomoney
- Bloomberg
